quinta-feira, 22 de abril de 2010

A sexualidade e o celibato entre os primeiros cristãos e no discurso dos Primeiros Padres


Falaremos um pouco da aversão à sexualidade (e ao prazer) e do celibato, segundo o cristianismo primitivo e o discurso dos Primeiros Padres. Pretendemos, com isso, identificar certos valores inerentes ao cristianismo emergente os quais influenciariam até hoje os nossos costumes e comportamentos, em particular, a nossa moral sexual.


Primeiro é importante que se diga: o cristianismo por se tornar o centro da devoção religiosa ocidental, passou a ser uma fonte geradora de normas morais. Nesse sentido, a noção de sagrado e profano ficou muito “bem definida", sustentando sua teologia e símbolos a respeito do que seria pecado (claro, sob o enfoque da sexualidade).


Tentemos, pois, contar essa história.

O cristianismo surgiu numa região localizada no Oriente médio, e conhecida como Palestina (o país de Canaã). É ali onde, em meio a uma pequena seita judaica, teria nascido Jesus Cristo, o Messias (um descendente da casa do rei Davi).


Importante destacar que, no início, a pregação dos discípulos de Cristo, também chamados de nazarenos, se baseava em três eixos principais: no «igualitarismo, na assistência social a todos (a caridade) e na salvação post-mortem (depois da morte)». Bem, nos ensina o historiador Paul Veyne.

Mas os nazarenos cultivariam, ainda, a preocupação com a austeridade e a repressão à sexualidade, e exaltavam personagens sociais desprezados na Antiguidade, como as «mulheres sem homens, ou seja, as virgens e as viúvas (Odon Vallet).

A força do cristianismo nascente, entretanto, era restrita, poucos adeptos e muitas perseguições. Só a partir da missão de Paulo, e, posteriormente, com a "conversão" (em 312), de Constantino (Imperador Romano), se inicia, realmente, um processo de ascensão e fortalecimento do cristianismo.

Curioso observar que Constantino antes da "conversão" lutava sob a proteção do Sol Invictus (Mitra). O mitraísmo era a religião mais difundida no império romano à época do nascimento do cristianismo. Sua origem data de 2.000 a. C (na Pérsia).


Apesar de algumas semelhanças entre Mitra e Jesus (nasceram de uma virgem, cearam com seus discípulos antes de morrer e ressuscitaram), Mitra é um deus guerreiro. Por isso, talvez, sua popularidade em Roma cuja simbologia se relacionava ao touro, ao sacrifício, ao sangue (não é à toa a paixão dos romanos pela lutas dos gladiadores).

Jesus, ao contrário, trazia a mensagem do amor, era o cordeiro (que se deu em sacrifício), o peixe.

Pois bem. Constantino ao trocar (antes de uma batalha) a bandeira de Mitra pela do cristianismo, terminou por tirar a religião dos nazarenos da clandestinidade. Tempos depois, o cristianismo torna-se religião oficial do Império Romano. E Teodósio, em 391, vai mais além, ao proibir os cultos pagãos. 



Estaria lançada, assim, uma plataforma para consolidação da Igreja e de seus valores morais. Valores esses que incorporariam muito da cultura pagã (numa espécie de "sincretismo moral").

Por isso, não seria prudente falarmos em "cristianismo puro". Nem tampouco generalizar o comportamento sexual dos romanos, como é de costume. Em síntese, como já dissemos: Roma não era um templo de prazer sensuais e luxúria sem nenhuma interdição ou tabus.


O que não afasta a possibilidade de apontarmos diferenciações importantes entre o cristianismo e o paganismo, do ponto de vista de moral sexual. Pois essas existiam e eram às vezes bem evidentes.

Fig. Cena do seriado Spartacus: sensualidade, nudez e luxúria. Contraste com a austeridade dos cristãos.

Ora, enquanto no círculo dos seguidores de Jesus Cristo haveria uma forte tendência a um controle restritivo do prazer e das sensações relacionadas à carne, bem como o medo com relação à nudez, a renúncia sexual completa para alguns (antecipação do celibato) e uma “severa desaprovação de um segundo casamento.

Entre os cultos pagãos, estaria o conhecido e prestigiado culto a Baco (dioniso), deus do prazer e da sociabilidade. A imagem desse deus se difundiria tanto no império romano dos primeiros séculos que chegaria a superar a de Vênus, deusa do amor e da beleza. O deus das ménades (das bacantes, por isso, o termo bacanal), quase sempre apareceria em meio à embriaguez e com suas adoradoras pouco vestidas e em êxtase (Veyne).


Mas pensemos, mais precisamente, nos primeiros cristãos, reunidos em pequenos grupos nas cidades sob o jugo romano. Uma seita menor no meio do judaísmo, na tentativa de engendrar um processo de construção de sua identidade moral diferenciada.

A teóloga Uta Ranke fala-nos, ainda, do ensinamento de Jesus no sentido de revogar o privilégio do conceito masculino de adultério e de poligamia, uma tentativa de abalar as estruturas pétreas do padrão de dupla-moral. (Dupla-moral: uma moral para os homens e outra para as mulheres, algo parece ainda observável nos nossos tempos).

De fato, a intenção dos cristãos seria assegurar uma diferença importante em relação aos pagãos, e tentariam isso provavelmente através de uma excepcional disciplina sexual.

Talvez por isso, o entusiasmo moral das comunidades urbanas cristãs e sua vontade em diferenciar-se, tornarem-se mais distintas e coesas em relação ao mundo pagão. Tudo isso se intensificaria com a crença em uma espécie de “fiscalização sagrada”, isto é, um «olhar penetrante de Deus a devassar os recantos da alcova».

Por outro lado, nesse processo de constituição das comunidades primitivas, a vertente feminina seria pouco a pouco sufocada, isso tanto na teologia, como na doutrina e na autoridade da igreja. Maria (a mãe de Jesus) e Madalena, por exemplo, seriam quase “silenciadas” nos Evangelhos Canônicos.

E se estabeleceria a autoridade de São Pedro, trazendo a mensagem cristã para o domínio quase exclusivo do Pater (Suely Almeida). Isso, ao nosso ver, em discordância aos ensinamentos de Cristo.


No fundo, um formato de pensamento no qual facilmente poderíamos detectar uma negatividade exaustiva com relação ao prazer sexual e o enfraquecimento do lado feminino nos nazarenos.

Somemos a tudo isso a crença na Parusia. Expliquemos melhor: segundo a filósofa Marilena Chauí, entre os fundamentos dessa antipatia à sexualidade, estaria a crença de que a morte e a ressurreição de Cristo eram sinais de um iminente juízo final. Ocasião em que a imortalidade seria reconquistada. Obviamente seriam dispensáveis as relações sexuais, pois não haveria mais sentido em se perpetuar a espécie humana.

Por consequência, os cristãos tenderiam mais ainda a se afastar de tudo que envolvesse a sexualidade e o sexo, mesmo que fosse para fins procriativos. É nesse sentido que Paulo exaltaria essa escatologia na Primeira Carta aos Coríntios, 7: o tempo já escasseia e os recém-casados devem se concentrar na nova fé e não nas preocupações mundanas (Drury).


Essa tendência de afastamento do prazer (de aversão à carne) ficaria cada vez mais evidente com a influência crescente do gnosticismo e dos neoplatônicos 

Os gnósticos (profundamente pessimista com a vida na terra) pregariam «a abstinência do casamento, da carne e do vinho»; e sobre o corpo, diriam: «um túmulo que carregaríamos conosco».


Invadiriam o pensamento cristão com uma radicalização contra a corporeidade e a matéria num nível muito além do pessimismo sexual dos primeiros nazarenos (Ranke). O corpo passaria a se distinguir (e diferenciar muito) do espírito.

Mas não esqueçamos que o rabinato pregava, segundo nos ensina Peter Brown, «o casamento como critério obrigatório de sabedoria», distanciando-se, assim, dessa aversão ao corpo e de sua sexualidade. Muitos veem ai um indício especulativo sobre a possibilidade de um Jesus casado (no caso, com Maria Madalena).

No entanto, «os dirigentes das comunidades cristãs nos séculos I e II, se orientariam em sentido diametralmente oposto» – um sinal, inclusive, de dominação especificamente masculina.

Nesse sentido, a supressão da sexualidade (uma espécie de antecipação do celibato, que se tornou disciplina obrigatória para os sacerdotes, na Igreja Latina, a partir do século XI), significaria um estado de disponibilidade decidida em relação a Deus, para eles: uma espécie de estado ideal.

Essa tendência anti-sexual e anticonjugal, associada a uma hostilidade flagrante ao prazer, levou alguns homens, como forma de se apresentar como modelo de vida cristã, a buscarem a castração física (Ranke).


Orígenes, o mais importante teólogo da Igreja grega, teria se castrado aos dezoito anos. E essas castrações voluntárias teriam chegado ao ponto, que o Imperador Adriano, no século II, decretaria a proibição da inusitada prática (Ranke).

Nessa linha, segundo Jean Delumeau, vários Padres da Igreja ao retomar uma longa tradição neoplatônica, perceberiam a união carnal como responsável por rebaixar o homem à condição de animal. Mais ainda: criariam uma vinculação, entre o sexo e a morte.

Fig. Para Neret, Gustav Klimt, ao pintar Judith I (a heroína biblica), tenta demonstrar essa associação sexualidade e morte (Eros e Tânatos).

São Gregório de Niza (330-395 d. C) escreveria: «A procriação é muito mais um princípio de morte do que de vida para os homens, pois a corruptibilidade começa com a geração. Aqueles que com ela romperam, fixaram para si mesmo, pela virgindade um limite para morte. (Apud Chauí)».

Toda essa degradação da sexualidade teria, então, contribuído para a "ascensão da dominação do homem celibatário na Igreja cristã", especialmente com a consolidação da igreja como instituição, a partir do século III. (Peter Brown).

Mas vale dizermos, esse celibato, em sua maioria ligada a uma abstinência sexual dos cônjuges, apresentaria uma peculiaridade curiosa: não se tratava de uma renúncia excessivamente impressionante.

Os homens da Antiguidade consideram a energia sexual como uma substância volátil, rapidamente esgotada nos calores da juventude. Além disso, morriam muitas mulheres. As duas realidades asseguravam "uma reserva permanente de viúvos sérios, disponíveis desde o início da idade madura e livres para se entregar às alegrias mais públicas do cargo clerical".

Enfim, todo esse processo de aversão à carne, típica dos padres da igreja, teria tornado o casal cristão "permeável, ao menos em teoria, às sombrias e graves ideias sobre sexualidade elaboradas por Santo Agostinho" com consequências importantes para os séculos vindouros (Ranke).


Mas a situação ficaria ainda mais radical com relação ao prazer e a sexualidade. Isso de daria com o surgimento de um movimento religioso chamado de monasticismo. Um acontecimento importante para a consolidação da moral cristã dos primeiros séculos.

Esses homens «ávidos de perfeição total» se retiravam para o deserto no intuito de vivenciar sua doutrina purista e se afastar do “mundo”, lugar de perdições e distante dos preceitos de Deus, segundo sua visão religiosa.

Continuaremos... (com os monges do deserto e Santo Agostinho)

Obras que serviram de referência: O pecado e o medo no Ocidente, Jean Delumeau; Santo Agostinho, Peter Brown; A história da Vida de Privada, volumes I e II, Paul Veyne; A negação do feminino, Suely Almeida; A história das Mulheres na Antiguidade, Odon Vallet; Eunuco pelo Reino de Deus, Uta Ranke; e outros


segunda-feira, 5 de abril de 2010

A "mulher pós-moderna", a moral sexual e os mitos contemporâneos



Os tempos atuais trazem à tona uma boa discussão em torno do que é a “mulher pós-moderna” e quais são os seus valores (ou novos valores) em termos de moral sexual.

Primeiro é importante que se diga: uma das principais revoluções do século XX, em especial, na sua segunda metade, foi a mudança nos papéis sociais da mulher (um processo ainda em andamento no século XXI), segundo bem nos ensina o historiador britânico Eric Hobsbawm.
E nesse efervescente processo cultural se pode observar um vigoroso (re)nascimento do culto ao prazer e uma valorização excessiva do corpo e sua erotização (o “hedonismo contemporâneo”). Era como se voltássemos "todas" as nossas atenções para o "viver na pele a vida”, com todas as suas oportunidades. Inclusive sexuais.

Falamos em (re)nascimento, pois “cultuar o corpo” não é uma inovação de nossos tempos. Os gregos, na Antiguidade, também cultuavam ao seu modo o “corpo” e o “belo”. Da mesma maneira, a sensualidade erótica foi também marcante em vários momentos de nossa história ocidental.
Na Atenas Clássica, nos debates filosóficos, o belo, o corpo e o amor eram temas recorrentes. O banquete de Platão fala bem desses aspectos na Antiguidade.

Na Roma renascentista, por exemplo, segundo G. Chastenet, na época dos Bórgias, a “cidade santa” foi palco de famosas orgias sexuais patrocinados, inclusive, pelo Papa Alexandre VI (O Papa Bórgias). Notem que a Igreja (com o Concílio de Trento) tentou combater esses “excessos“ morais do clero e criou um rigoroso código moral para o catolicismo.

Pois bem. É em meio a toda essa "hedonização" massificada, que vivenciamos a recriação, em imagem e valores, dessa “nova mulher”. Uma “nova Eva” poderíamos dizer. Mas uma Eva que não aceita mais a alcunha depreciativa de “pecaminosa”. Por isso, bem mais liberta, e sem tanta culpa (sexual) a lhe atormentar. Talvez até uma “Eva” com traços da lendária Lilith.
Expliquemos melhor: Lilith, segundo antigas tradições orais judaicas, teria sido a primeira mulher de Adão (antes de Eva). Mas por ter exigido “direitos” iguais a Adão (inclusive, copular por cima), se rebelou e abandonou o Paraíso. Deus enviou anjos para trazê-la de volta, mas Lilith negou-se atender o “pedido” divino. Mais tarde, a tradição cristã a transformou em demônio (Sucubus), especialmente na Idade Média. Nas décadas de 60 e 70 torna-se símbolo dos movimentos feministas. A iconografia de Lilith (A lua Negra) está associada aos cabelos longos, à noite, à natureza insubmissa .
Notem, por outro lado, que a pós-modernidade é mensageira de uma imensa valorização do sentir (do toque, do contato carnal, do viver o momento, da “comunhão de afetos”).

No fundo, seus valores estão embebidos com o vinho de Dionisio, por isso toda sua emotividade e aproximação com o "Eros carnal". Obviamente, em detrimento ao "refletir", característico da Era Moderna e do deus grego Apolo (que é quase sempre associado ao pensar reflexivo, ao guardar-se, à contenção do prazer, ao equilíbrio).

Vejam que ao falarmos, sob uma forma simbólica (usando os mitos), estamos tentando demonstrar fortes sentimentos e sensações, presentes nas nossas mentes e no "inconsciente coletivo", que, no passado, foram divinizados.

E que têm uma profunda ligação com a moral sexual feminina dos nossos dias (que também "diviniza" suas crenças, valores e cria seus mitos).

 
Fig - As ninfas dominam o Sátyro (símbolo da sexualidade) e usam-no à vontade. Uma boa metáfora para expressar a liberdade sexual conquista pelas mulheres na pós-modernidade.
Fig - O próprio deus Dionisio (Baco) apresenta traços masculinos e femininos. E é símbolo da antítese: emoção versus contenção (razão). Ora, pensar em termos dessa "onda do sentir", também é perceber uma profusão de imagens e cores que inundam o nosso cotidiano (os shoppings centers são bons exemplos disso).
As "imagens" parecem avançar sobre o nosso corpo (interferindo inclusive em nosso discernimento), tomando-nos de assalto.
E essa "multicoloração" parece estar "ligada diretamente às simbologias femininas, à valorização positiva da mulher, às constelações noturnas, da natureza e da fecundidade”. Como defende com maestria o francês G. Durand (um dos pais da Teoria do Imaginário. E isso nos interessa muito.

 
Era como se o véu de Isis e de Mâyâ começassem a cobrir a sociedade ocidental, numa espécie de “feminização do ocidente”. (Uma amiga, Érica, disse-me essa semana: os brinquedos, que se dizia antigamente "para meninos", estão de "feminizando", preste atenção! - combinamos escrever juntos sobre isso).
Ísis cobrindo Osiris com seu Manto (Véu). Ísis concebeu Hórus (consciência) sem relação sexual.
Mas, centremos agora nossos olhares à questão da moral sexual, pois precisamos falar do "relativismo moral" .

Ora, nesse mundo em gestação cultural, parece haver tendência ao fortalecimento do “relativismo moral”. Um fenômeno que parece se consolidar cada vez mais na cultura ocidental e que sinaliza para uma flexibilização (ou relaxamento) da moral e dos costumes, em particular, os relacionados à sexualidade.


Nele, se consagra uma “ética sexual” contextualizada, ou seja, para cada grupo (ou tribos) haveria uma ética ou moral própria ou próprias - não necessariamente concordantes entre si.

Em resumo: o que é “imoral” ou “errado” para certo grupo, pode não ser para outro (estamos aqui aproximando os conceitos de “ética” e “moral” para simplificar).

Em textos anteriores falamos desse relativismo no tocante à “infidelidade feminina”, ou seja, no grupo das "católicas carismáticas" a "fidelidade sexual ao parceiro" era considerado algo fundamental. Já para o outro grupo pesquisado, ou seja, de "mulheres afastadas do catocilismo oficial", a situação era bem diferente, se relativizava para quase metade das entrevistadas.

Quando falamos em “grupos” necessariamente nos deslocamos para tentar compreender o que seria as chamadas “tribos pós-modernas”, ou seja, as tribos urbanas que povoam as nossas grandes cidades.
Maffesoli chama-as de "legiões" nas quais há um “denominador comum” que é a “participação mágica num gosto específico”, ou seja, juntam-se segundo sentimentos às vezes não identificáveis objetivamente, pois relacionados a afetos, à sensações mais difícies de se apontar a um simples olhar.
E isso é bem comum em algumas seitas, em grupos esportivos, entre os “Emo”, "os metaleiros", os "góticos", as associações, as turmas de esportes radicais, os naturistas, etc. Todos, inclusive, com a participação muito intensa das mulheres .


Notem que esse fenômeno tem estreito relacionamento com uma período de nossa história que é herdeiro de um processo no qual os grandes sistemas políticos e ideológicos, os quais prometiam (e profetizaram) uma sociedade perfeita, fracassaram (pelo menos parcialmente). Sistemas os quais se estabeleciam o que o indivíduo "deveria ser" ou fazer para ser bem sucedido, a partir de uma espécie de magistério moral, como o "códice de Moisés".

Numa perspectiva se se alcançar "no futuro" a felicidade e o bem-estar coletivo: algo que não aconteceu.

Talvez por isso, tais promessas irrealizadas, com todas as suas “verdade universais” inerentes, caíram meio no vazio, especialmente depois das duas Grandes Guerras Mundiais. Por consequencia, a razão, o logos ("perfeito") perdeu um pouco de seu cédito e começou a ceder espaço para o Eros (símbolo também do imperfeito, do desequilíbrio). Lembrem-se que, na mitologia grega (no Banquete), Eros é filho de Pínia (a pobreza).

E mais: a filosofia e a ciência política (todas duas entoando o hino de louvor à razão) idealizaram um mundo maravilhoso que o nazismo transformou em um verdadeiro inferno na terra. Óbvio que esse fracasso de se construir um paraíso terrestre (ou uma “Cidade de Deus” como Santo Agostinho sonhou) trouxe implicações importantes no campo da moral sexual. Pois os códigos morais consagrados perderiam sua natureza inquestionável.
Com isso, se "relativizaria" a moral.

Mas, por outro lado, também é verdade que a sexualidade (no seu sentido restrito) às vezes parece está se transformando num produto de supermercado. Usam-se, experimentam-se, ou trocam-se relacionamentos sexuais e afetivos como se fossem produtos de consumo, escolhidos numa prateleira. Continuaremos nos próximos textos, para tratar da superficialidade das relações e mais particularmente para falar da doutrina moral católica...

Referências: O tempo das tribos, M. Maffesoli, A parte do diabo, M. Maffesoli; A fé do Sapateiro, Gibert Durand, A história da sexualidade, Michel Foucault, Lucrécia Bórgias, Geneviève Chastenet.










sexta-feira, 26 de março de 2010

A prostituição sagrada e as Grandes Deusas.


O tema prostituição sempre foi polêmico e provavelmente nunca deixará de sê-lo. A despeito de tudo isso, é possível abordá-lo como um fenômeno social. Aqui, por enquanto, nos preocuparemos em discutir a prostituição sagrada e falar um pouco das Grandes Deusas do "passado".

Primeiro é importante que se diga: a prostituição já foi considerada sagrada, segundo alguns historiadores. E o que surpreende nela, segundo Maffesoli, era sua “função agregativa”, ou seja, a capacidade de “juntar” o grupo, de promover a coesão. Além de fortalecer os laços das comunidades antigas, sob uma aura de misticismo (ou de um “orgiasmo sagrado”). Tudo em torno da crença nas Grandes Deusas.

Nesse sentido, o sexo e a espiritualidade comungariam em benefício de um projeto da comunidade.
Evidencia, ainda, o referido sociólogo francês uma função primordial da prostituição sagrada, tal seja: “ser tudo para todos”, dar-se ao conjunto integralmente (o que é característica fundamental de uma divindade e de suas representantes).

Mas, precisamos, antes de mais nada, encarar a polêmica sobre a existência ou não de uma Era matriarcal. Uma suposta época em que a mulher detinha (ou compartilhava) a hegemonia política e o poder religioso, sem nenhuma supremacia do homem.

Nessa sociedade idílica, defendem alguns autores, não haveria guerra nem violência sistemática. Nela, se festejava a vida em cultos silvestres (e agrários) para homenagear a deusa natureza e sua força criadora (a fonte da vida: como é o caso da Vênus do paleolítico). Notem que por sí só a mulher é símbolo da vida. É ela que gera e dá a luz. Por isso, sua associação com as divindades geradoras.


Claro que há uma idealização bem evidente nesse pensamento. Mas, assim são construídos os nossos mitos, inclusive os cristãos. (Estamos a usar o termo “mito” no sentido de verdades profundas, embelezadas com metáforas, poesias e simbolismos).

Pois bem. Segundo Rose Muraro, essas sociedades teriam florescido em várias regiões há pelo menos 30.000 a.C. A historiadora faz ainda referência à introdução de um novo modo de produção, o agrícola (em torno de 10.000 a.C) e o estabelecimento da cultura das cidades, tudo isso com estreita relação ao matriarcado.

Era o Tempo das Grandes Deusas, cujo declínio teria acontecido especialmente a partir de 4.000 a.C. Motivadas por invasões de povos guerreiros advindos dos estepes, os quais teriam “introduzido o machismo, a cultura da guerra e a sociedade patriarcal”.

É nesse declínio que se daria o surgimento das religiões abraâmicas (o judaísmo, o islamismo e o cristianismo). Ora, os textos bíblicos mais antigos datam em torno do século V ao I a.C. e em muitos deles há uma mensagem patriarcal bem forte e às vezes não tão amigável à mulher.

O Gênese é prova disso. Não é à toa que “a mulher aparece como duplamente culpada pela queda humana”, pelo menos segundo uma leitura mais tradicional. Além disso, no mito adâmico, a serpente aparece como símbolo do mal. Mas a serpente era símbolo de sabedoria e de regeneração para as Grandes Deusas. Talvez, por isso, a tentativa de trazê-lo para o "lado" do mal.

Quanto ao cristianismo, importante comentar que a Virgem Maria, talvez, não possa ser considerada como uma representação da Grande Deusa. Penso próximo à visão de Ana Maria Mendes. Para ela, enquanto a "Grande Deusa é quem propiciava vida e a morte, sendo a deusa da terra e das forças telúricas. A Virgem Maria é a Deusa dos Céus que sendo Virgem deu à luz o filho de Deus". Apesar de encontarmos algumas semelhanças entre a Virgem Maria, a Ísis Egípcia, Devaqui, entre outras, inclusive quanto ao nascimento virginal de seus filhos.

Mas não entraremos nessa controvérsia, importa-nos examinar, nesse momento, a vida nos Templos erguidos para adoração das Deusas. Eram nesse lugares sagrados nos quais as suas sacerdotisas ofereciam serviços sexuais (pagos). As taxas serviam como uma espécie de oferenda às deusas. Um tributo aos seus “favores sexuais” de conotação divina.

Na Suméria (Oriente Médio), por exemplo, as sacerdotisas da Deusa Inanna, mais tarde chamada de Ishtar, na Mesopotâmia, cultivavam o ritual da prostituição “como forma de ajudar aqueles que procuravam o templo para reencontrar-se, morrer para renascer e dar um novo sentido a vida”.

A própria Ishtar, “a benfazeja”, foi identificada como uma prostituta. E mais: sendo as prostitutas-sacerdotisas membros do templo, considerado centro religioso, político e econômico na Mesopotâmia, o status de prostituta era bastante elevado.

Não esqueçamos que no próprio código de Hamurabi, os direitos da prostituta sagrada eram protegidos. “Seus filhos não eram difamados e elas preservavam a reputação de mulher casada”.

Um dos primeiros poemas mais antigos que se tem notícia no mundo, o Épico de Gilgamesh (em torno de 2.000 a.C), fala da prostituição de uma forma sagrada, bem como exalta seu poder civilizador.

Poderíamos ir multiplicando os exemplos. Mas não podemos deixar, por último, de citar a tentativa da Igreja, no passado, de associar Maria Madalena a figura de uma prostituta (arrependida). E Lot que “oferece suas filhas “virgens” aos habitantes de Sodoma em troca de deixarem em paz os estrangeiros que acolheu em casa (Gênese 19,6)”.

Mas voltemos ao nosso percurso. Os homens buscavam os templos para melhorar as colheitas, os rebanhos, para chover mais (“a chuva fecundadora”). E até para receberem as bênçãos e a graça das deusas visando engravidar suas esposas.

Segundo a historiadora Nickie Roberts, essas mulheres foram consideradas a encarnação terrena da deusa. Eram o “elo vital entre a comunidade e a sua divindade, e isso elas fizeram como sacerdotisas xamânticas”. As Vênus, por exemplo, representam a fertilidade.

Não havia a famosa dualidade neoplatônica tão cara ao cristianismo, ou seja, não havia um distanciamento fundamental entre o espiritual e do sexual. Carne e espírito comungavam com certa harmonia, como parte da natureza. Por isso, tantos rituais de celebração a fertilidade nas mais diversas religiões e mitologias.

Marie Louise von Franz fala-nos das religiões pagãs, originárias dos germânicos e dos celtas, nas quais se cultuavam à Mãe Terra e a outras deusas da natureza. Em muitas dessas festas haveria a prática de orgias sexuais com uma aura de sacralidade. Os carnavais têm muito haver com essas celebrações. E as máscaras venezianas têm certa relação com a vontade de perde-se no todo, abandonando a individualidade.


Por isso, para alguns autores a prostituição sagrada era uma forma de atingir a espiritualidade através da carne. Nesse sentido, Débora F. Lerrer, em seu artigo Sexo Sagrado, nos afirma: “A prostituta sagrada encarnava a deusa, tornando-se responsável pela felicidade sexual”.

Do mesmo modo, os ritos secretos, ligados a tradições pagãs deixaram vestígios da existência de rituais sexuais, como Mistérios de Eleusis, dedicado à deusa Deméter, na Grécia. E ritos outros que se espalharam pela Europa. Todos com a característica de "transcender o indivíduo", como se "o prazer entrasse na esfera da vida cósmica".

Mais curioso ainda é que não só as sacerdotisas arrecadavam tributos para o templo. No culto à Deusa Milita, na Babilônia, por exemplo, pelo menos uma vez na vida todas as mulheres migravam à porta do templo e ofereciam serviços sexuais.

O dinheiro era, então, doado ao templo, como oferenda. Uma taxa dita como justa e devida à Deusa. Detalhe: nenhuma mulher poderia se negar a prestar o serviço.

Na Idade Média as francesas de Savóia, uma vez por ano, se reuniam para visitarem tabernas e se encontrarem com outros homens, com o consentimento dos respectivos maridos. A despeito da questão do pagamento, tal comportamento parece ser uma recorrência da época da prostituição sagrada e dos cultos da fertilidade.

Vejam que por trás do tema “prostituição sagrada” há uma boa discussão sobre sexualidade e religião. E mais: denota a força do patriarcalismo, embasada nos credos judaicos, cristãos e islâmicos, e seu controle sobre a sexualidade das mulheres.

Continuaremos...

Fontes; As prostitutas na história, Nickie Roberts; As prostitutas na Bíblia, Jonathan Kirsch; Feminino e masculino, Rose M. Muraro e Leonardo Boff; A sombra de Dioniso, Michel Maffesoli.
Outras fontes:
http://www.triplov.com/creatio/moreira.htm; http://www.forumnow.com.br/vip/mensagens.asp?forum=15836&topico=2667152

segunda-feira, 8 de março de 2010

A "infidelidade feminina" e a moral católica

Helena e Paris - Na Ilíada, Helena foge com Páris para Tróia e abandona seu marido (Menelau).


Tentaremos abordar brevemente o tema infidelidade sexual, sob o ponto de vista da mulher e como fenômeno contemporâneo, destacando à medida do possível os seus conflitos com a doutrina moral católica.

Acrescento: esses conflitos ficarão mais evidentes em um artigo seguinte dedicado à moral sexual relativo à mulheres consideradas “católicas praticantes” (inclusive as do movimento carismático).

Nossa conversa se fundamenta em pesquisas bibliográficas (inclusive documentos oficiais da igreja) e pesquisa de campo (entrevistas).

As entrevistas foram realizadas, em 2008/2009, com 130 (cento e trinta) mulheres de classe média ou alta, entre 18 e 44 anos, originárias de cinco cidades nordestinas: João Pessoa, Campina Grande, Natal, Recife e Salvador.

Foram abordados os seguintes temas: virgindade, masturbação, fidelidade, desejos, culpa, aborto, união civil (relações homoafetivas), pecado original, crença na virgindade de Maria etc. Aqui, por enquanto, discutiremos a variável pesquisada: relativização da fidelidade sexual.


Falemos então sobre a (in)fidelidade.

Foi observado, no discurso das mulheres mais afastadas do catolicismo institucional, que quase a metade das entrevistada (48%) reconhecem que a fidelidade ao parceiro perdeu um pouco de sua sacralidade, ou seja, não é algo tão fundamental (indiscutível) em uma relação. Podendo até ser flexibilizada.

Tentemos, pois, compreender alguns aspectos desse fenômeno social, que é sempre polêmico.

Primeiramente, é bom que se diga: falar em infidelidade, nos dias atuais, é também discutir um pouco a liberdade sexual conquistada nas últimas cinco décadas pelas mulheres. E mais: o velho jargão popular "o homem, tudo pode..." parece caducar um pouco, pois nos obriga a perguntar: "e a mulher?"

Nesse sentido, o movimento jovem das décadas 60 e 70 (e falamos especialmente dos Hippies, ao som do rock and roll e de seus famosos slogans Peace and Love) não teria sido revolucionário se não tivesse se posicionado também em flagrante discordância aos valores tradicionais da sociedade, incluindo a moral sexual. 

Uma moral que era permissiva com a infidelidade masculina mas condenava veementemente a infidelidade feminina.


Na realidade, a sociedade impôs uma repressão muito intensa à mulher e a sua sexualidade. Além de tentar "guardá-las" nas paredes do lar, restringí-las ao doméstico, melhor dizendo, consagrava o modelo burguês (do século XIX): mulher maternal, passiva e quase assexuada.

Todavia, esse tipo de modelo começou a se desmoronar (falamos em termos de tendência). Não no ritmo "cantado" em Woodstock (lendário festival de rock ocorrido nos Estados Unidos, em 1969). Mas, simbolicamente, a partir desses anos rebeldes "iniciou-se" um processo de profundas mudanças no comportamento sexual das mulheres.

Notemos, por exemplo, o caso dos anticoncepcionais modernos (figura importante nesse contexto). A pílula apareceu como uma «ferramenta definitiva para iniciar a liberação das mulheres». O seu uso maciço permitiu a mulher separar «o desejo sexual da vida familiar», ou seja,  fazer amor sem o risco de engravidar. Isso, parece-nos, de uma importância fundamental para se compreender esse processo.

Podemos ainda levar em consideração o pensamento de Alain Corbin, para quem o mundo viveu entre a pílula e a aids, os trinta anos gloriosos (Trente Gloriuses) da sexualidade. O direito ao prazer associado à liberdade de não procriar – espécie de um "não" ao "multiplicai-vos" (Corbin).


Célebre à época a discussão sobre o pensamento da francesa Simone de Beauvoir (e seu polêmico livro O segundo sexo). Uma das maiores expressões intelectuais do feminismo ocidental, casada com o filósofo Jean Paul Sartre, com o qual mantinha uma espécie de "casamento aberto".

Beauvoir faria críticas contundentes às diferenças existentes nas relações de gêneros (entre homens e mulheres), em especial no tocante à liberdade sexual, incluindo-se o casamento, por ela considerado um “verdadeiro cárcere para a mulher”.

É sua a famosa frase: "não se nasce mulher, torna-se mulher"- crítica a um modelo de mulher ocidental, construido culturalmente, mas imposto à mulher como se fosse um desenho natural (ou divino).


Esses ares de liberdade sexual, soprados desde a década de 60, parecem influenciar o comportamento atual, não obstante, o surgimento de movimentos de (re)valorização de comportamentos (no sentido de valores)  considerados conservadores.

Associemos a tudo isso um mundo onde o culto ao prazer (o hedonismo pós-moderno) é bastante estimulado, impulsionado por um nítido desejo de consumo (vejam os shopping centers), inclusive em forma de satisfação sexual.

Agora, juntemos a tudo isso: 1) o direito (ou quase obrigação) ao prazer sexual; 2) a prática de uma liberdade sexual cada vez mais vanguardista, olhem, por exemplo, o que acontece nas festas de rua, onde quase tudo é permitido - nossos carnavais sem máscaras são talvez mais ousados que as antigas (e novas) festas privadas dos carnavais venezianos; 3) as possibilidades criadas no silêncio da noite (ou do dia) pela internet e suas redes virtuais; 4) o crescente culto ao corpo e seu narcisismo inconfundível; 5) e a independência financeira vivida em algumas classes sociais.


Forma-se, assim, um quadro onde o conceito de fidelidade pode se “relativizar”, como bem indicou as pesquisas. Isso do ponto de vista de fenômeno social e não sob o enfoque psicológico. E ressalvemos: estamos discutindo o fenômeno social infidelidade e não fazendo julgamento de valores (de mérito) ou justificando uma ou outra corrente de pensamento ou de comportamentos, pelo menos assim o pretendemos.

Há quem diga, como o antropólogo Roberto Albergaria, que “a traição chegou a um ponto que perdeu o charme transgressivo à medida que se generalizou”. Ou como historiador francês Gèrard Vicent, talvez exagerando, para quem está surgindo uma espécie de monogamia flexível como modelo para os casamentos de nossa era. Mas não sejamos tão radicais assim.
Do ponto de vista religioso, é importante frisar: tais perspectivas comportamentais cria uma zona de ruptura cultural intensa entre a moral sexual mais laica e a religiosa (em particular, com o catolicismo).
Há também uma boa discussão sobre a questão da culpa (não a travaremos agora, mas ela é importante e tem muito haver com o cristianismo, em particular com a tradição católica)

Mas voltemos um pouco à questão do hedonismo pós-moderno (o culto ao prazer de nossos dias).

O filósofo contemporâneo Michel Maffesoli defende a tese de que vivemos os tempos de retorno de Dionísio, deus do vinho, em contraponto ao deus Apolo (relacionado à moral, ao controle de si). Não esqueçamos que os cortejos dionisíacos são marcados pela presença de mulheres, em êxtase, segurando plantas.


Nesse efervescente clima de desconstrução e transformações de valores surgem questões que não podem passar despercebidas, até porque impactam diretamente a questão da moral sexual. e da (in)fidelidade.


Uma delas é a inversão do processo repressivo, ou seja, ao invés de se tentar conter a sexualidade e o prazer (típico da era burguesa e da moral sexual pregada pela Igreja), instaura-se uma espécie "obrigação" de se ter prazer, de buscá-lo a todo custo (extremos de consolidam).

Além disso, percebemos a consolidação de um conceito estético de beleza, no sentido de consumo e objeto erótico (o que é pior) que escraviza a mulher. Pois, sua massificação termina por elaborar um modelo ideal inantigível à grande maioria (como todo ideal), bem diferente dos anseios das lutas feministas das décadas de 60 e 70.

Bem nos representa essa simbologia estética a brasileira: Gisele Bundchen - um ícone de beleza da pós-modernidade, mas uma beleza perece-nos distante do mundo real. O que não deixa de causar um certo sofrimento numa gama de mulheres que não atendem essa padrão idealizado. 


No fundo, assistimos à generalização das atividades físicas de maneira a preparar o corpo para ser mostrado (como objeto de culto hedonista), a despeito de falarmos em geração saúde. A intenção é estarmos com o corpo sexualmente atrativo.

Queira ou não, uma alteração radical na maneira de se perceber e lidar com o corpo, sem o "pudor" e a "vergonha" de outros tempos na esfera pública (ex. os biquínis e o top-less de muitas praias ).

É bom lembrar que a figura da Virgem Maria chegou a ser concebida como um «padrão de beleza para o Ocidente, (por ser "pura") como Vênus teria sido para a antiguidade greco-latina». Miguel Ângelo faz essa exaltação em sua obra prima La pietta, um retrato fiel dessa relação: puríssima e bela (Gilbert Durand).
Nesse contexto, forma-se uma configuração de tensão inevitável com a igreja católica, uma situação potencializada pelo conservadorismo do último papado (João Paulo II) e do seu sucessor, Bento XVI. Ainda não se pode falar do novo Papa.

Alguns vislumbram o mundo se dirigindo para um lado e a Igreja em sentido contrário. Não poderíamos concordar plenamente com a afirmação, pois existem correntes progressistas dentro do catolicismo, além disso, nessa questão não é raro encontrarmos discursos e comportamento dicotômicos.

Quanto à infidelidade propriamente dita, a doutrina moral da igreja católica é enfática sobre o assunto. Vale citarmos a Encíclica Papal: Humanae Vitae de Paulo Vi (1968), ao falar do amor e da fidelidade na relação conjugal: (...) «É ainda, amor fiel e exclusivo, até à morte (...). Fidelidade que por vezes pode ser difícil; mas que é sempre nobre e meritória, ninguém o pode negar. (...) ».

Vejam o distanciamento dessa posição com relação ao discurso observado na nossa pesquisa.

E outras pesquisam apontam números parecidos com a nossa. Por exemplo, a pesquisa denominada Mudanças nos papéis de gênero, sexualidade e conjugalidade nas camadas médias urbanas do Rio de Janeiro, coordenada pela antropóloga Mirian Goldenberg, verificou, em um total de 166 mulheres pertencentes à camada média urbana carioca, 54,3% haviam sido infiéis.

Verificou-se ainda na pesquisa referida pesquisa que abaixo de 30 anos o percentual de infidelidade feminina é maior do que a média, chegando a 60% em mulheres com até 20 anos.

Confirma essa percepção, a respeito da infidelidade feminina, o sociólogo Antony Giddens, segundo o qual: «La proporción de mujeres casadas durante más de cinco años que han tenido aventuras sexuales extramaritales es hoy virtualmente la misma que la de los hombres ».

Bem diferente, o resultado com as mulheres católicas carismáticas, para as quais 88,00% afirmam ser a fidelidade primordial numa relação, sem possibilidades de flexibilização. Em comunhão com a opinião oficial da igreja sobre a matéria.

Como se vê há uma dicotomia evidente entre a moral sexual pós-moderna presente nos discursos de mulheres ligadas diretamente a Igreja e as mulheres mais laicas (ou seja, mais distanciadas dessa tradição religiosa).

(Fizemos uma nova edição do texto, inserindo novos comentários que achamos hoje devidos)...

Texto baseado na Dissertação de Mestrado de André Agra, na Pós-graduação de Ciências das Religiões (UFPB). As discussões e dados mais completos da pesquisa sairão no Livro Moral Sexual: as mulheres pós-modernas no “Confessionário” (a ser lançado em breve).