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quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

Moral Sexual e Igreja Católica

(Continuação do texto anterior).

Cores, indefinição, emoção, relativismo, subjetivismo: ícones da pós-modernidade.

Começamos no texto anterior a discutir a revalorização da emoção na pós-modernidade (alerta: quando falamos emoção, estamos discutindo também a valorização conferida aos valores em torno do imaginário e do simbólico). 

O endeusamento do presente, a emoção do instante: aspectos simbólicos da vida pós-moderna.

Passemos agora a encarar o tema sob a ótica da moral sexual e da religião.

 
Pois bem. Nesse aspecto, de cara se vê uma intensa disputa se firmando: por um lado, uma tendência ao relativismo (para quem as  verdades variam em cada época, lugar, cultura), por outro, um pensamento o qual vê a moral sexual a partir de conceitos universais (verdades intocáveis e atemporais).

Essa última, uma postura cultivada por alguns segmentos mais conservadores da sociedade e pelas religiões institucionais (como a Igreja Católica).

A Igreja Católica fundamenta, por exemplo, muito de sua moral sexual a partir dos mitos presentes no Gênesis,  ou seja, segundo relatos concernentes ao "casal primevo", Adão e Eva.
Adão e Eva
Sem querer polemizar esse ponto (por enquanto). Tratemos de lançar um olhar sobre a “agitação moral” que alimenta esse cenário. Detalhe: uma agitação que faz emergir,  muitas vezes, valores considerados "chocantes" (o atual big brother e as novelas expressam bem isso!).  



Pensemos, também, nos inúmeros "eventos de massa" ou "ajuntamentos sociais" (ex. Raves, shows de rock etc) . Pois, nesses, a aproximação entre as pessoas (os grupos, as tribos, torcidas etc.) se realiza muito mais a partir de afetividades, emoções e desejos. Sem haver uma preocupação maior com os fins ideológicos ou racionalmente determinados (ex. os sistemas morais impostos).

Isso tudo, tende, óbvio, a refletir na sexualidade (hoje difusa e multifacetada), nos costumes e comportamentos.

Shows, Raves, Eventos esportivos: uma ebulição de sentimentos.
Por isso, toda uma dificuldade criada para a Igreja, no sentido de desenvolver um diálogo, uma adaptação dos seus códigos e ensinamentos mais ortodoxos a esse panorama. 

A quebra de conceitos às vezes pode parecer chocante, mas é real, por isso, deve ser encarada como um dado social a ser compreendido muito mais do que julgado (penso eu).

Por outro enfoque, teríamos ainda de levar em consideração a existência de uma agitação religiosa: as missas-shows (e cultos-show) estão também lotados, energizados e meio irracionalizados (os eventos carismáticos são bons exemplos disso).

No fundo, Dionísio (deus da emoção) emerge de um "sono antigo" e faz-se símbolo da contemporaneidade. O que não significa um retorno do irracionalismo.


Entretanto é importante enfatizarmos: ele carrega em si uma forte conotação hedonista, corporal e sensível.


Não é a toa que Lady Gaga expressa tão bem esse momento cultural.


É ai é onde reside o ponto maior de conflito com a Igreja.

Falemos, especificamente, da Igreja católica. Uma instituição que vive sob a égide de um discurso moral enrijecido, em especial nos últimos decênios, pela atuação conservadora dos papados de João Paulo II e Bento XVI, os dois apegados ao universalismo dos conceitos morais, de uma forma sectária e intransigente.

Nesse sentido, é possível listar as encíclicas papais: Evangelium vitae (Paulus II,1995), Veritatis splendor (Paulus II,1993), e Deus Caritas est (Benedictus XVI, 2005).


Notem: essas encíclicas exprimem, muitas vezes, uma razão autoritária que tem como base uma moral do dever-ser.

E mais: a essência do judeu-cristianismo almeja um Paraíso, uma "sociedade perfeita" (leia-se com uma ordem moral "impecável"). Santo Agostinho falava em "Cidade de Deus", ou seja, uma contenção do prazer momentâneo para se auferir benefícios futuros.

Um e outro (aspectos) compondo uma estrutura (sistema moral) pouco valorizada nos dias atuais, pelo menos em ambientes mais laicos (sem tanta força das religiões majoritárias)

Nos ambientes mais religiosos, de uma modo distinto, o ser (como indivíduo) educa-se (religiosamente) para enfrentar as tentações do grupo (do outro), e rechaçá-las. Há muitos ensinamentos e textos que ensinam o católico a se conter, a se afastar dos “desejos pecaminosos” (segundo sua doutrina).

E tudo, repisemos, em nome de um projeto divino de futuro, o qual a tradição judaico-cristã teria privilegiado como sendo o "ideal de superioridade".

Além disso, no mundo de hoje, há uma busca pelo ser-em-conjunto (a tendência a se juntar em grupos, em tribos) que pressupõe a "perda do indivíduo no sujeito coletivo", na partilha de afetos.

E nesses, é possível perceber-se: não é comum se fazer apostas para o futuro, vive-se o presente como se eterno fosse o instante.

Nesse contexto, forma-se um contraste inevitável entre um mundo hedonista (de culto ao prazer) e a mensagem dos movimentos religiosos.

É importante percebermos, ainda, no centro desse discurso religioso, que se reverbera com força entre as seitas neopentecostais (incluindo-se os carismáticos), uma tentativa de retorno a um passado permeado por uma moral austera e intransigente com o prazer.

  

Há quem pense (de forma mais radical) como Jurandir Xavier que, em meio a esse "universo de mestiçagem", o fanatismo religioso apresenta-se como último grito de desespero de um desejo de pureza que se tornou impossível e imoral.


Todavia, não podemos generalizar o pensamento católico, no tocante à moral sexual. Inúmeras vozes destoantes se fazem ecoar, desde partidários da teologia da libertação à teologia feminista, e de outras correntes mais progressistas.



Nessa linha, e sem a intenção de se alongar em demasia, poder-se-iam citar: Leonardo Boff, Ivone Gebara, Johson, Uta Ranke, Jean Delumeau e D. José Maria Pires.

Este último, inclusive, já alertava para uma concepção purista sobre a experiência da sexualidade construída pelo Cristianismo, dizia D. José: "(...) No cruzamento do platonismo com a rígida moral judaica criou-se uma experiência do corpo e do sexo dicotomizada, (...). (...). Ao corpo é negado o “status” de espaço, de epifania, de manifestação do sagrado".


Polêmicas a parte, é possível concluirmos: a “re-elaboração” de conceitos em torno da moral sexual, na pós-modernidade, vive e viverá conflitos intermitentes.

De um lado, uma “sociedade” vibrante na qual a liberdade sexual e o prazer momentâneo (inclusive estético) são seus estandartes inconfundíveis.
Dionísio

Em outro extremo, o discurso religioso dos movimentos neopentencostais (incluindo-se os carismáticos) tentando resgatar (ou reconstruir) uma moral sexual mais próxima de sua visão de mundo.

Uma coisa parece evidente: os tempos de hoje parecem assistir a coroação de Dionísio (da emoção, do imaginário e do simbólico), e em seu séquito, Eros (o amor carnal) é figura exuberante.


Apolo (a razão), por outro lado, ainda com prestígio na Corte, fica indignado com a força do caos, do sensível. A própria barbárie em ação (ex. a fúria consumista nas grandes lojas e os grandes eventos esportistas) 

Mas não esqueçamos (citando Maffesoli): "(...) em muitos períodos, foi exatamente a barbárie que regenerou uma porção das civilizações moribundas." 



Referências: Leonardo Boff, Ivone Gebara, Uta Ranke, Jean Delumeau, D. José Maria Pires, Michel Maffesoli.

quinta-feira, 11 de novembro de 2010

O amor (Eros) e o sexo (Afrodite): dramas da pós-modernidade.


Tentaremos discutir o suposto fenômeno contemporâneo de  enfraquecimento do amor (Eros) e a valorização da cultura do prazer erótico, melhor, do sexo.

Antes de tudo, é importante que se diga: a sexualidade vem sofrendo significativas transformações no âmbito sociocultural, em particular no tocante à moral sexual da mulher pós-moderna (discutimos isso em textos passados).
 


Além disso, assistimos a elaboração de uma nova “ordem moral”, sob uma perspectiva de arrumação social na qual a busca obsessiva pelo “prazer erótico”, hoje cultuado e glorificado, tem uma relação muito estreita com o ímpeto consumista vivido no Ocidente.

No fundo, era como se houvesse uma “subjugação do sexo ao comercial”. E isso é bem nítido na “invasão de imagens sexuais que aparecerem em quase toda parte no mercado, como uma espécie de empreendimento comercial gigantesco”. (Os filmes são bons exemplos disso).

( Entre lençóis, um drama no qual todas as cenas são gravadas em um motel)


Mas alertamos: tal situação não deixa de ser um contrassenso à pregação dos anos áureos da rebeldia (1968), uma espécie de ano simbólico para as transformações morais que viriam a marcar a pós-modernidade.

O movimento Hippie, por exemplo, ao defender a liberação sexual o fazia num sentido de exaltar “valores humanístico”. As feministas, ao seu modo, lutavam para libertar o “corpo” da mulher dos grilhões impostos por uma sociedade conservadora e machista.


Não imaginavam, tanto um como outro, o surgimento (logo nas décadas seguintes) de uma nova forma de submissão que atingiria  em cheio a mulher. Uma submissão relacionada, principalmente, à "estética" e a "ditadura do prazer".  

Isso não significa, obviamente, que a mulher não tenha se beneficiado de suas conquistas, em matéria de moral sexual. Destacaríamos por ora o fato de a mulher passar a ter o domínio de seu corpo e de seu prazer, sem tantos tabus e/ou pressões sociais!

Algo fundamental para uma sociedade que se diz justa, e um importante contraponto aos modelos autoritários, criados por uma sociedade androcêntrica (centrada no homem) e profundamente sexista. Duas características culturais do Ocidente em fase de esgotamento tardio.


Estabelecidas, então, essas ideais iniciais, passemos a nossa discussão central, ou seja, há realmente um cisão entre o sexo e o amor? 

Tentaremos usar os mitos para respaldar nossa análise. 



Nesse sentido, ousaríamos fazer duas perguntas: 1) estariam as flechas de Eros (deus do amor) ou as flores de Kãma (deus do amor indiano) em desuso, aposentadas?  2) a busca do "sexo pós-moderno" é, em resumo, uma fuga do amor, de Eros?

Situaremo-nos em discordância respeitosa  a essa tendência de pensamento, segundo a qual haveria esse afastamento crescente e abismal entre o amor e o sexo.

Preferimos crer na (re)adaptação dos encantos divinos do Eros às circunstâncias culturais. Melhor dizendo, se as serenatas, os buquêres de flores, as cartas de amor deixaram de "existir", não significa que os e-mail, os torpedos, as intervenções nas redes sociais, as novas abordagens, também, não possam exercer essas funções amorosas. E o fazem! O amor é imprevisível e às vezes nas cenas mais abstratas ele se corporifica, faz-se refletir como imagem e sentimento.



 Pensemos, por exemplo, em Matrix - possivelmente um símbolo formador de mitos de nossos tempos.

Pois bem. A força do amor de Trinity (psiquê) e sua dedicação, ao seu amado, Neo, fez ele renascer. Poderíamos dizer que Romeu e Julieta ou Tristão e Isolda se amam mais do que o casal Neo e Trinity?

Ora, os mitos se tocam! O passado e o presente futurista convergem, cada um a sua maneira, mas denotando uma essência comum (a força do Eros). Sob esse ponto de vista, o Olimpo (a casa dos deuses gregos) e o filme Matrix estariam bem mais próximos do que imaginamos.
 
Concentremo-nos, então, nessa "força do amor":

“Eros nasce sob o signo da eterna beleza”, por isso “vive a sua procura eternamente”, ou seja, busca o tempo todo o “belo” (no outro ou eu projetado).

Um belo que não se resume à estética (física), pois ele tem desejo de mais, das qualidades do amado, por exemplo, sejam elas reais ou idealizadas.
 

Além disso, segundo algumas narrativas mitológicas, o amor (Eros) é poderoso em recursos (herança de seu pai, Poro). Sabe, no entanto, que não tem nada garantido (os amantes convivem com essa incerteza). Mas, por ter essa consciência, ele “quer muito”, e luta incansavelmente por isso (lembrem-se da luta de Trinity por Neo ou de Abelardo por Heloísa).

Por outro lado, de sua mãe (Pênia, a pobreza), o Eros (o amor) herdou a penúria. Sabedor disso, “quer sair de si e aspira por saber, por beleza e fecundidade”, e tenta fazê-lo a todo custo.

Pois bem. O amor (como sentimento humano) traz em si muito disso, ou seja, ele é ávido, parece sempre com muita sede e fome de desejo. E tem força (potencial) suficiente para desejar a totalidade do outro, a sua dedicação, o seu corpo, sua alma...


Mas também é ciente da dor de não ter nada (a pobreza) e torna-se, muitas vezes, possessivo e até deveras irracional (a insegurança lhe atormenta).
Difícil não reconhecermos esses sentimentos decantados nos mitos em nossa sociedade, em nossas mentes, seja hoje, seja no passado mais longínquo. O mito faz-se vida! E vida tem haver com amor.

Por isso, não teríamos dúvidas em afirmar: Eros não morreu! (mesmo o Eros romântino, e não estamos falando rigorosamente do amor romântido do século XIX).
 
Parece mais que ele está se disfarçando, nas fantasias virtuais, na volúpia pelo “tudo”, na inflação de imagens, na insegurança de nossos tempos. Aqui e ali, ele deixa rastros claros.

O desejo erótico não deixa de ser  seu delator, a vontade de ser grupo tem seu cheiro; as pessoas procuram hoje se unirem em redes, em tribos, em grupos. Há uma força de coesão dionísiaca nisso tudo que tem também a cara de Eros. 

 
Mas para não parecermos tão tendiosos, citaremos alguns argumentos em contrário a nossa argumentação, vejamos:
 
Então, para muitos estudiosos do assunto, o amor (O Eros romântico) parece cada vez mais raro. Para eles, era como se as pessoas se unissem “às outras mais por uma busca sexual e por um alívio de tensão, gerando vários tipos de amores, que nada se parecem com o amor romântico.”
 
Uma postura radical? Sim! Mas ela tem também muitas verdades.

Por exemplo, impressiona a quantidade de casamentos e uniões de poucos anos (entre pessoas jovens), nos quais se percebe uma dilaceração da intimidade, da “emoção romântica”.

Jovens casais vivendo relacionamentos nos quais o sexo, apaixonado e intenso, é uma figura quase ausente (fictícia), ou seja, a atividade sexual (erótica, no sentido do Eros) praticamente não existe.

Cria-se uma cela onde a solidão do "um" reina e a esperança do "dois" tem dificuldades de penetrar. O colorido do amor se torna opaco.
 

Parece não haver tempo suficiente para se amadurecer a sexualidade do casal. Ou tudo se desenvolve rapidamente, ou senão abre-se um imenso campo para o desânimo, ao desinteresse mútuo.

Em resumo, começa-se um relacionamento já se antevendo a possibilidade de se buscar um outro, e outro....( como se diz: “a fila anda”).


Outro bom exemplo dessa ideia é o chamado sexo casual. É comum, hoje em dia, encontrarem-se mulheres em busca de uma “relação passageira” com fins exclusivos de prazer sexual.

Sem nenhuma intenção de construir um compromisso sério, simplesmente para se divertir (o que ao meu ver á legítimo, mas essa não é a questão!).


O cotidiano está cheio de testemunhos de mulheres as quais pronunciam sem medo: não faço tanta questão de “fazer amor” com meu marido, algumas vezes até dizem: prefiro comprar uma roupa, ou ir a um passeio, “sair com as amigas”, mergulhar nas redes sócias, “fazer sexo virtual” etc.


Não que tudo isso não existisse no passado, mas hoje com a liberdade e igualdade nas relações tais situações são paradoxais, parecem entranhas. Em tese, esperava-se mais das relações.




A ausência da intimidade, no sentido de se buscar a construção de uma relação duradoura (palavra em desuso hoje) e um amadurecimento da vida sexual cada vez mais íntima e prazerosa, simplesmente não acontece. Desiste-se já no início, ou leva-se a relação por inércia.



Há casos de mulheres as quais sua intimidade é mais discutida com seus “parceiros virtuais” do que com o seu próprio companheiro.

Claro que o sexo de hoje por ser mitificado e massificado (via televisão, internet, filmes..), tende a exibir uma imagem de um sexo muito intenso fisicamente, quase acrobático e sem tantas regras pudicas. Um reino de fantasias, para muitos, não vivenciado em casa.


Isso causaria, a nosso ver, desequilíbrios emocionais e inseguranças, com todas as suas consequências em termos de impotência sexual, frigidez, desânimo com o parceiro e até mais um estímulo à infidelidade.


Junte-se a isso o argumento de autores mais radicais, para os quais o Eros perde o seu valor originário e agrega-se apenas ao desejo sexual. Nesse aspecto, se instauraria um cenário de separação entre o amor e o sexo, pelo menos dentro de relações mais estáveis.

No entanto, volto a minha argumentação inicial, e faço-o crendo que por trás dessa aparente cisão entre o sexo e o amor, ainda guardamos uma espécie de tendência humana nata (um arquétipo, talvez) para amar.
 

Os mitos não mentem! Era como se estivéssemos parecendo se distanciar do Eros (do Amor), mas ao mesmo tempo o fizéssemos sem poder negar a sua existência impregnada ao nosso ser.

Uma contradição? Uma visão muito romântica da vida de Eros? É possível. Não descartamos essa possibilidade.

No mundo dos sentimentos e das sensibilidades, a razão e sua arrogante lógica tem lá suas limitações.


E convenhamos: mesmo do ponto de vista "estritamente sexual", difícil imaginar uma relação só corpo, pelo menos em regra geral.



Pensem bem: havendo algum tipo de atração entre corpos, há a possibilidade de se estabeler algum tipo de sentimentalidade (o mínimo que seja).

Quando dizemos: a "carne fala", "sente", estamos também usando a linguagem do Eros. E é difícil provar em contrário!


E por mais que se diga: "o amor está morrendo", "se faz sexo sem nenhum sentimento", "vale só o prazer do momento", prefiro a poesia atualíssima do gênio inglês, Shakespeare:

 (...)

O amor não se transforma de hora em hora,

Antes se afirma para a eternidade.

Se isso é falso, e que é falso alguém provou,

Eu não sou poeta, e ninguém nunca amou.


Fontes:

A sombra de Dionísio, Michel Maffesoli.

http://www.frb.br/ciente/PSI/PSI.BATISTA.etal.F2%20.pdf2 (MAY, Rollo. Eros e repressão: amor e vontade. Petrópolis: Vozes, 1973).

GIDDENS, Anthony. A transformação da intimidade. São Paulo: Editora Unesp.
 http://www.istoe.com.br/reportagens/44777_9+MITOS+SOBRE+O+AMOR

RAY, Rollo. Eros e repressão: amor e vontade.

http://www.humanitates.ucb.br/3/eros.htm

http://mulher.terra.com.br/interna/0,,OI1472286-EI4788,00-Mulheres+tambem+apostam+no+sexo+sem+amor.html

Falando de Shakespeare, Bárbara Heliodora.

domingo, 4 de julho de 2010

"Virgindade": um tabu para as mulheres católicas?


Apresentaremos nesse texto pesquisa relativa ao tema "virgindade sexual" da nova mulher nordestina.

Entretanto, não pretendemos discutir, por enquanto, a "virgindade" sob o ponto de vista da teologia e da moral.

Ou seja, não tentaremos compreender, nesse momento, questões como a proeza teológica dos monaquistas (os famosos Monges do Deserto) em conceberem o mito de um homem e uma mulher sem vida sexual no Paraíso (antes da Queda), “induzindo-nos” a imaginar a "virgindade" como o verdadeiro retorno à natureza edênica (do Éden).


Aliás, essa tese dos monges do deserto foi combatida, já nos primeiros séculos, por Santo Agostinho. No entanto, ela (a tese monaquista) não deixaria de jogar mais infâmias à sexualidade e mesmo ao casamento (um estado potencial para se desvirtuar a verdadeira natureza: a vida casta e virgem) (J. Delumeau).

Falaremos em texto futuro dessas sementes as quais foram lançadas no terreno ocidental e fertilizaram, fazendo com que houvesse uma valorização desse "atributo" (a "virgindade"), especialmente,  no contexto do catolicismo. 

Também adiaremos um pouco a discussão de uma possível influência, ou não, no comportamento sexual das mulheres católicas, em termos de castidade e virgindade, relacionadas à imagem e à constelação de valores em torno da Virgem Maria .


Por ora, interessa-nos simplesmente expor alguns resultados de entrevistas realizadas com 100 mulheres nordestinas relativas ao tema moral sexual e religiosidade, em particular sobre o "tabu da virgindade".

Os grupos de mulheres foram divididos em três: 1) católicas praticantes não carismáticas, 2) católicas praticantes carismáticas e 3) mulheres educadas no catolicismo, mas hoje afastadas da Igreja (instituição). Isso em cinco cidades nordestinas (João Pessoa, Campina Grande, Natal, Recife e Salvador).Pois bem, passemos aos números:


No grupo das mulheres afastadas do catolicismo, foi observada uma desvalorização relativa da virgindade. A sua grande maioria afirmou não mais valorizar esse "atributo" (84,00%).



Com relação ao grupo das católicas praticantes, 54,55 % delas distanciam-se da premissa defendida pela orientação da Igreja, ou seja, para elas a virgindade, apesar de ainda ser um ponto valorativo para mulher católica, parece apresentar sinais evidentes de fragilização.

Era como se a mulher buscasse respirar sua liberdade sexual sem tanto medo de emergir, de fazer-se notar, a despeito da religião e da tradição.


Somente as católicas carismáticas apresentam um percentual de valorização da virgindade alto, quase 80 % dessas mulheres, segundo a pesquisa, veem a virgindade como um "atributo" importante.
Interessante, todavia, observar que em entrevistas realizadas com mulheres carismáticas do grupo Shalom (13) - um segmento católico mais conservador, do ponto de vista de moral sexual - o percentual de valorização da virgindade chegou a 100%.

Pareceu-nos que a importância atribuída à virgindade, detectada nesse grupo, não derivaria puramente de uma tradição ou obediência cega à Igreja, mas reforçava sua percepção teológico-doutrinária sobre o uso do corpo.


Para elas, o corpo da mulher por ser um templo de atuação do espírito santo somente estaria apto a se unir a outro corpo (no sentido sexual) em condições particulares, ou seja, quando houvesse um amor mais próximo à Ágape que a Eros, no sentido lhes atribuídos na Carta Encíclica: Deus caritas est (de BENTO XVI).


Além da necessidade de legitimação do ato, isto é, era condição essencial a consagração através do matrimônio. Como consta no Catecismo, ou seja: «a união do homem e da mulher no casamento é uma maneira de imitar na carne a generosidade e a fecundidade do criador ».

Não obstante, a idealização e poética advindas de suas palavras, podemos dizer que nos sentimos surpreendido pelo nível de resposta e confiança de sentimentos com relação ao ato sexual.



Quando abordamos o tema ingresso no matrimônio virgem, o percentual em todos os grupos aumentou na direção de desvalorização dessa condição.

Isso se explicaria, segundo as entrevistadas, porquanto mesmo as que valorizam a "virgindade" - ou lhe atribui certo valor – não afastaram a possibilidade ou “necessidade” de conhecer o parceiro sexualmente antes do casamento.

Por isso, não identificam problemas sérios em manter relações sexuais, especialmente, se essas acontecerem com os “futuros maridos”, ou seja, se houver realmente a presença de Eros (talvez melhor seria usarmos o termo Ágape, por se tratar de uma comunidade católica), salvo novamente as mulheres do shalom, as quais defendem a virgindade até o sacramento do matrimônio.



Nesse caminho, a pesquisa do Instituto Brasileiro de Opinião Pública e Estatística (Ibope) sobre o pensamento da juventude católica em relação à sexualidade e reprodução, já citada neste trabalho, «detectou que 79% dos jovens não concordam com a determinação da Igreja que só se pode fazer sexo depois do casamento ».



Margem essa que se aproxima dos dados coletados nesta pesquisa com relação à amostra total que apontou 72 % de mulheres que não consideram importante ingressar no matrimônio virgem. Mas destoa diametralmente das respostas oferecidas pelas carismáticas, para as quais 75 % valorizam essa condição.

Notável a discordância entre as mulheres afastadas do catolicismo e as carismáticas, em termos de virgindade e ingresso no matrimônio virgem. Pensamentos dicotômicos sobre o que é o corpo para a mulher contemporânea.

Enfim, nossa pesquisa sugeriu que há sim uma influência detectável da religiosidade no comportamento sexual, na moral sexual, melhor dizendo. E, entre grupos mais conservadores de mulheres católicas, a virgindade é ainda um "tabu" a despeito do hedonismo contemporâneo e da liberdade sexual dos tempos pós-modernos.


Fontes: O pecado e o medo no Ocidente, Jean Delumeau; Moral Sexual: a mulher pós-moderna no confessionário (dissertação de mestrado), André Agra; História do Corpo, volumes I, II e III; Carta Encíclica: Deus caritas est (de BENTO XVI).