domingo, 4 de julho de 2010

"Virgindade": um tabu para as mulheres católicas?


Apresentaremos nesse texto pesquisa relativa ao tema "virgindade sexual" da nova mulher nordestina.

Entretanto, não pretendemos discutir, por enquanto, a "virgindade" sob o ponto de vista da teologia e da moral.

Ou seja, não tentaremos compreender, nesse momento, questões como a proeza teológica dos monaquistas (os famosos Monges do Deserto) em conceberem o mito de um homem e uma mulher sem vida sexual no Paraíso (antes da Queda), “induzindo-nos” a imaginar a "virgindade" como o verdadeiro retorno à natureza edênica (do Éden).


Aliás, essa tese dos monges do deserto foi combatida, já nos primeiros séculos, por Santo Agostinho. No entanto, ela (a tese monaquista) não deixaria de jogar mais infâmias à sexualidade e mesmo ao casamento (um estado potencial para se desvirtuar a verdadeira natureza: a vida casta e virgem) (J. Delumeau).

Falaremos em texto futuro dessas sementes as quais foram lançadas no terreno ocidental e fertilizaram, fazendo com que houvesse uma valorização desse "atributo" (a "virgindade"), especialmente,  no contexto do catolicismo. 

Também adiaremos um pouco a discussão de uma possível influência, ou não, no comportamento sexual das mulheres católicas, em termos de castidade e virgindade, relacionadas à imagem e à constelação de valores em torno da Virgem Maria .


Por ora, interessa-nos simplesmente expor alguns resultados de entrevistas realizadas com 100 mulheres nordestinas relativas ao tema moral sexual e religiosidade, em particular sobre o "tabu da virgindade".

Os grupos de mulheres foram divididos em três: 1) católicas praticantes não carismáticas, 2) católicas praticantes carismáticas e 3) mulheres educadas no catolicismo, mas hoje afastadas da Igreja (instituição). Isso em cinco cidades nordestinas (João Pessoa, Campina Grande, Natal, Recife e Salvador).Pois bem, passemos aos números:


No grupo das mulheres afastadas do catolicismo, foi observada uma desvalorização relativa da virgindade. A sua grande maioria afirmou não mais valorizar esse "atributo" (84,00%).



Com relação ao grupo das católicas praticantes, 54,55 % delas distanciam-se da premissa defendida pela orientação da Igreja, ou seja, para elas a virgindade, apesar de ainda ser um ponto valorativo para mulher católica, parece apresentar sinais evidentes de fragilização.

Era como se a mulher buscasse respirar sua liberdade sexual sem tanto medo de emergir, de fazer-se notar, a despeito da religião e da tradição.


Somente as católicas carismáticas apresentam um percentual de valorização da virgindade alto, quase 80 % dessas mulheres, segundo a pesquisa, veem a virgindade como um "atributo" importante.
Interessante, todavia, observar que em entrevistas realizadas com mulheres carismáticas do grupo Shalom (13) - um segmento católico mais conservador, do ponto de vista de moral sexual - o percentual de valorização da virgindade chegou a 100%.

Pareceu-nos que a importância atribuída à virgindade, detectada nesse grupo, não derivaria puramente de uma tradição ou obediência cega à Igreja, mas reforçava sua percepção teológico-doutrinária sobre o uso do corpo.


Para elas, o corpo da mulher por ser um templo de atuação do espírito santo somente estaria apto a se unir a outro corpo (no sentido sexual) em condições particulares, ou seja, quando houvesse um amor mais próximo à Ágape que a Eros, no sentido lhes atribuídos na Carta Encíclica: Deus caritas est (de BENTO XVI).


Além da necessidade de legitimação do ato, isto é, era condição essencial a consagração através do matrimônio. Como consta no Catecismo, ou seja: «a união do homem e da mulher no casamento é uma maneira de imitar na carne a generosidade e a fecundidade do criador ».

Não obstante, a idealização e poética advindas de suas palavras, podemos dizer que nos sentimos surpreendido pelo nível de resposta e confiança de sentimentos com relação ao ato sexual.



Quando abordamos o tema ingresso no matrimônio virgem, o percentual em todos os grupos aumentou na direção de desvalorização dessa condição.

Isso se explicaria, segundo as entrevistadas, porquanto mesmo as que valorizam a "virgindade" - ou lhe atribui certo valor – não afastaram a possibilidade ou “necessidade” de conhecer o parceiro sexualmente antes do casamento.

Por isso, não identificam problemas sérios em manter relações sexuais, especialmente, se essas acontecerem com os “futuros maridos”, ou seja, se houver realmente a presença de Eros (talvez melhor seria usarmos o termo Ágape, por se tratar de uma comunidade católica), salvo novamente as mulheres do shalom, as quais defendem a virgindade até o sacramento do matrimônio.



Nesse caminho, a pesquisa do Instituto Brasileiro de Opinião Pública e Estatística (Ibope) sobre o pensamento da juventude católica em relação à sexualidade e reprodução, já citada neste trabalho, «detectou que 79% dos jovens não concordam com a determinação da Igreja que só se pode fazer sexo depois do casamento ».



Margem essa que se aproxima dos dados coletados nesta pesquisa com relação à amostra total que apontou 72 % de mulheres que não consideram importante ingressar no matrimônio virgem. Mas destoa diametralmente das respostas oferecidas pelas carismáticas, para as quais 75 % valorizam essa condição.

Notável a discordância entre as mulheres afastadas do catolicismo e as carismáticas, em termos de virgindade e ingresso no matrimônio virgem. Pensamentos dicotômicos sobre o que é o corpo para a mulher contemporânea.

Enfim, nossa pesquisa sugeriu que há sim uma influência detectável da religiosidade no comportamento sexual, na moral sexual, melhor dizendo. E, entre grupos mais conservadores de mulheres católicas, a virgindade é ainda um "tabu" a despeito do hedonismo contemporâneo e da liberdade sexual dos tempos pós-modernos.


Fontes: O pecado e o medo no Ocidente, Jean Delumeau; Moral Sexual: a mulher pós-moderna no confessionário (dissertação de mestrado), André Agra; História do Corpo, volumes I, II e III; Carta Encíclica: Deus caritas est (de BENTO XVI).


sábado, 5 de junho de 2010

O "Sacramento da Confissão" e o controle da sexualidade.



Foi o IV Concílio de Latrão, em 1215, que tornou as confissões obrigatórias, exaustivas e periódicas (Foucault).


Mas esse poderoso sacramento cristão tem também uma relação bastante interessante com a sexualidade feminina, ou melhor, com o seu controle. É disso que iremos falar.



Antes, porém, é importante responder o que é na realidade o "sacramento da confissão"?

Para a Igreja Católica,  Jesus Cristo veio "em auxílio do pecador por meio de um Sacramento especial. Durante sua vida terrena, perdoou aos pecadores arrependidos, e na Cruz expiou a culpa de toda a humanidade. No dia da sua Ressurreição, deu aos Apóstolos e aos seus sucessores no sacerdócio, o poder de perdoar os pecados em seu nome. Instituiu assim o Sacramento da Confissão ou Penitência e o confiou à sua Igreja".


Mas pensemos primeiramente em termos do século XIX - considerado por muitos especialistas como a «idade de ouro do sacramento e da penitência, ou seja, o século da confissão».

Vejam que é possível se fazer uma ponte entre a confissão e a contenção da sexualidade, em particular num mundo burguês que tentava a todo custo definir e impor um modelo de mulher ajustado aos seus interesses.



Pois bem. Com a vigorosa ajuda  do sacramento da confissão  foi possível catalogar, classificar e codificar a sexualidade, isso de um modo meticuloso e exaustivo (Marilena Chauí). 

Ora, a simplicidade da lista dos quatro pecados de São Paulo teria, então, "se perdido na noite dos tempos, ante a sofisticação das situações pecaminosas extraídas das confissões" (Chauí).

Aliás, dos sete pecados capitais (soberba, avareza, luxúria, ira, inveja, gula e preguiça), o pecado sexual dominaria todos os demais. Notem que a confissão terminou por gerar uma espécie de ansiedade em relação ao sexo e alimentou a famosa culpa cristã.



A evolução dos procedimentos de confissão teria sido espantosa. Numa primeira época, se indagava o que se teria praticado efetivamente pela penitente, especialmente com relação aos atos sexuais (Foucault). 


Todavia, inspirado em Santo Agostinho, a indagação passaria a contemplar se haveria, além do ato, o desejo de praticá-lo, ou seja, estar-se-ia agora na seara das intenções de pecar.

Em seguida, o confessor seria instruído a conhecer a verdadeira anatomia do pecado carnal e todas as circunstâncias e materializações em que esse pudesse ser representado e gerasse um estímulo (Chauí ).


              Curioso observarmos que é do século XIX (1853) o primeiro pronunciamento-resposta da igreja católica a respeito do uso do preservativo (“camisinha”). Nesta ocasião teria sido formulada a seguinte questão: «A mulher pode ceder passivamente a esse tipo de relação sexual?». A resposta do Vaticano: «Não» (Uta Ranke).

No último quartel deste século a igreja passaria a encabeçar uma luta severa contra a anticoncepção. Essa obsessão por detectar “sinais de pecado” ficaria evidente nas confissões femininas. Além dos praticados e os desejados, suscitariam ainda os (“pecados”) que poderiam provocar as tentações (Corbin).

Um enquadramento dramático para a mulher, a partir do qual se imporia um controle e uma vigilância tão intensos, que terminaria por semear o aparecimento da própria “situação pecaminosa”.

Em resumo, o que era para ser uma barreira, psicológica, social e cultural, de fundo “religioso”, para se evitar os “males” prescritos pela igreja, paradoxalmente, se transformaria num estímulo ao “pecado”.

E o confessor com suas indiscrições bem intencionadas, muitas vezes, funcionava como o alimentador do “pecado”.


A insistência nas confissões em abordar o tema sexualidade terminava por estimular a própria sexualidade (um paradoxo não prevista pela Igreja).

Mas não se parou por aí. Depois da caracterização do pecado a partir do “estímulo à tentação”, a lista de pecados e ocasiões seria incrementada com um novo componente: os sonhos.

Até as alegrias dos sonhos seriam agora motivo de preocupação e de pecaminização.

Portanto, o corpo e a alma relaxados para o descanso, criariam a melhor oportunidade para o demônio infiltrar-se, sem que houvesse como combatê-lo e vencê-lo.

De posse, então, desses sinais detectados, o confessor deveria formular sua pedagogia. Talvez por isso, tantos códigos de comportamentos foram elaborados para conter quaisquer que fossem as atitudes providas e indutoras de sexualidade (Vigarello).

Não havia limites para imaginação, pois sempre haveria algo novo e pecaminoso no ar por trás de um olhar inocente. Era como se todos estivessem de máscara escondendo a luxúria, o desejo de "pecar".


E o corpo e o mundo estariam, assim, "postos sob suspeita", ou seja, a confissão cria uma sensação de desconfiança no outro.

Entretanto, a eficácia dessa obsessão deve sempre ser examinada com ressalvas. Exageros à parte, Vincent nos explicita o pensamento de Flandrin, para quem os preceitos cristãos não teriam sido seguidos pelos seus fiéis.

O fundamental não estaria tanto na eficácia conseguida ou não pelas regulações religiosas alimentadas pelo confessionário, mas na implantação invisível de um modelo ideal de vida e de perfeição determinando a existência social (Chauí).


Com relação ao Brasil, Gilberto Freyre faz uma ressalva interessante sobre esse mecanismo de vigilância religiosa. Para ele o confessionário teria funcionado como «meio que teve a mulher patriarcal no Brasil de descarregar a consciência e de libertar-se um pouco da opressão do pai, do avô ou do marido sobre sua personalidade».




Ademais, toda essa pressão de uma moral burguesa rigorosa, apoiada pela igreja e parte da classe médica, terminaria por insuflar meio a contragosto o imaginário erótico - como o confessor que de tanto abordar o tema sexualidade termina por chamar atenção para os “vícios da carne”, como o fizera o sacramento da Confissão.


Para Foucault, é sob essa nuvem de desconfiança, de vigilância e medo do sexo, que por volta de 1860, começaria «a história contemporânea da sexualidade». Uma sexualidade inventada, segundo ainda Foucault, pela «preocupação com a própria sexualidade».

Corbin assim nos delineou esse momento: «Surdas emoções abalariam a cultura tradicional: o imaginário erótico se transforma. Encerrado na esfera privada, o burguês começa a sofrer com a sua moral.



A "tentativa" de contenção sexual foi tão intensa que o erotismo terminou por inundar o ocidente, uma espécie de reação da psique.

A miragem de uma sexualidade popular, bestial e livre, aviva a tentação da fuga social: a prostituição passa a ter novos atrativos». Um novo contexto começa a se idealizar, o tema prostituição invadiria a literatura (ora, a literatura não é inocente). Zola procuraria ilustrar essa valorização dos bórdeis ao escrever Nana.(Mary Del Priore). 

E quando os casais se erotizam, nos ensinou Corbin, «o fascínio da carne» se estabelece. Na ficção, o ideal do «anjo do lar» sofre também suas transformações, as personagens femininas tornam-se seres sexuais, sensuais (Mary Del Priore).


Mesmo no Brasil, Gilberto Freyre faz referência ao inconformismo do padre Lopes Gama (1793-1805), um crítico dos costumes do império, com uma crescente substituição da «dona de casa ortodoxamente patriarcal nos sobrados e até em algumas casas-grandes de engenho», nos princípios do século XIX, «por um tipo de mulher menos servil e mais mundano», que iria ao baile e ao teatro, lia romance e estudava música (Mary Del Priore).

A devoção religiosa e as visitas ao confessionário já não eram na intensidade de antigamente, pelo menos para as mulheres mais elegantes.

Um choque entre o puritanismo cristão, a família burguesa e os desejos inconfessáveis se instauraria. Ante esse quadro dramático, restaria à sociedade patriarcal um remédio necessário: tentar intensificar a castração da sexualidade feminina e usar e abusar da hipocrisia para se saciar “onde tudo pode”: no lupanar (bordel) e nas infidelidades.


Um conflito que se estenderia por muito tempo e marcaria a história da sexualidade contemporânea...


Referências bibliográficas: Moral Sexual: a mulher pós-moderna no Confessionário, André Agra; Repressão sexual, Marilena Chaiui; História da sexualidade, v.1, v2 e v.3, Michel Foucault. Eunuco pelo Reino de Deus, Uta Ranke. História do Corpo, Corbin; História das Mulheres no Brasil, Mary Del Priori; e outros.



domingo, 23 de maio de 2010

A obsessão cristã em demonizar o sexo na Idade Média: um prenúncio da "caça as bruxas".


Nossa intenção em abordar esse tema não é simplesmente discutir a história por si só, mas, fundamentalmente, tentar compreender o reflexo desse passado em nosso tempo, no nosso “hoje” .

Um passado, talvez até distante, mas que tem muito a nos ensinar sobre os nossos costumes e comportamentos atuais.

Falamos, em particular, da demonização do sexo e  às suspeitas lançadas sobre as mullheres, numa conjunção de força que iria subsidiar a famosa "caça as bruxas" e alterar o imaginário ocidental sobre a sexualidade feminina.

Nos dediquemos, no entanto, ao período compreendido entre os séculos XI a XIII (na Europa feudal).
Uma época na qual se instauraria uma intensa manipulação da imagem da mulher e de seu corpo. E notem: numa contexto cultural em que o poder patriarcal e a Igreja reforçariam o seu desejo de castrar cada vez mais a sexualidade feminina.

Tentavam, dessa maneira, impor uma forma de pensamento baseada numa suposta  "aspiração divina", de acordo com sua interpretação das Escrituras, a despeito da natureza e dos próprios instintos humanos.

Nessa situação, a honra e a vergonha, assuntos  eminentemente masculinos, seriam ao final vinculados ao comportamento das mulheres. 

Ora, eram as mulheres que, segundo se temia, poderiam "desonrar" os homens, especialmente no exercício de sua sexualidade.
Nesse período se consolidaria o "Amor Cortês", cantado pelos trovadores.

Tudo isso gerou um receio doentio e obsessivo, em particular com o adultério. O que "justificaria" o enclausuramento e a vigilância das mulheres.

Talvez por isso, tantas lendas e contos da época abordassem essa tema. Com um detalhe interessante: geralmente eram relatos que terminavam com fins trágicos. Um exemplo clássico é Tristão e Isolda.


Essa vigilância para com a mulher se estendia, inclusive, a sua solidão (assunto de nosso texto anterior). Diziam à época: "se uma menina se tocasse (masturbar-se), ou estava tendo um encontro com Satã ou havia sido enfeitiçada por bruxas". (...) "A paranoia era tão grande que muitos tomavam banho vestidos”.

Mesmo a forma de praticar o ato sexual sofreria a interferência da Igreja, ou seja, a posição consentida era a chamada “a missionária” (atual “papai-e-mamãe”).

Curiosidade: essa posição sexual era a que os missionários cristãos difundiam "em sociedades onde predominavam outras práticas".

Pois, para os cristãos, seria a ela a única posição a estar de acordo com a palavra. Usavam incluvive o apóstolo Paulo. "A mulher deveria sujeitar-se ao marido", ou seja, a posição  da mulher por baixo, no ato sexual, era uma representação dessa submissão.

Lembremos, entretanto, da rebeldia de Lilith (primeira mulher antes de Eva) que exigiu copular por cima com Adão. Uma insubmissão prontamente negada (por não estar compatível com a natureza).

Mas a Idade Média seria palco de outros estranhos exageros no tocante ao ato sexual. Em particular, quando o ato envolvesse mulheres virgens: é o caso do direito do senhor feudal em violar a esposa do seu servo (Latim: jus primae noctis).

O ancião entregando suas filhas ao senhor feudal. Não podemos deixar de fazer um paralelo dessa situação com o que ocorreu em nossas fazendas até pouco tempo.

Georges Bataille, em seu ensaio Erotismo, visualizaria o direito à “primeira noite” além de uma demonstração de poder e de abuso contra a mulher, uma simbologia de interdição associada ao ato de deflorar uma virgem.

Expliquemos melhor: o ato sexual ao ser colocada sob o "signo da vergonha", combinado com o ato de “defloramento” de uma virgem se caracterizava uma transgressão de ordem muito elevada. Pois muitos religiosos só atribuiam a virtude a uma mulher que fosse virgem.

Por consequencia, o noivo se tornava uma figura inabilitada para o ato.


Caberia, assim, a alguém com "poder" para tal.

Os sacerdotes inicialmente indicariam os eleitos - prática coibida pelos religiosos. Em consequência, estabeleceu-se o costume vil de pedir-se ao senhor, um soberano, da região para deflorar a moça.


No fundo, a intenção por trás de todos esses costumes e arranjos sociais seria a manipulação e limitação do autoconhecimento corporal da mulher. Como se quisessem aproximá-la ao modelo mariano (segundo uma visão "purista" e irrealizável).


A historiadora Mary Del Priore seria mais enfática ainda, ao vê-los como indutores de uma repressão sexual rigorosa e geradora de uma relação mulher/corpo matizada por sentimentos de culpa, de impureza e de vergonha.

No entanto, a igreja, não satisfeita, reforçaria cada vez mais o seu pessimismo sexual e sua misoginia (espécie de ódio à mulher). E usaria, dentre outros, documentos como o Responsum, do papa Gregório Magno (540-604 d. C), o provável idealizador dos sete pecados capitais. Para Gregório o prazer nunca ocorreria sem pecado.

Em suas reflexões sobre o prazer, fazia questão de realçar: «não basta dizer que o prazer não é meta lícita nas relações sexuais, mas que, quando ocorre, há transgressão das leis do matrimônio».

Essa visão perduraria do século XI ao XIII – época da Escolástica (a idade áurea da teologia).


Santa Catarina de Siena (1347-1380 d.C), por exemplo, afirmaria: «nenhum pecado é mais abominável que o da carne»(Carlos Bauer).

Essa relação de pecado e sexualidade seria um elemento central da afamada culpa cristã – um «poderoso veneno», nos diria Nietzsche, ao criticar o ideal das religiões cristianizadas de macular a vida, o corpo e o “homem”.

Com efeito, a concupiscência da carne passaria a representar na sua simbologia o próprio demônio. Esse martírio psicológico perseguiria os fiéis da cristandade por muito tempo, e tornar-se-ia um elemento intrínseco e emblemático da tradição católica.
É notável a dificuldade da Igreja Cristã em lidar com o corpo e as suas sensações. Mesmo o tocar-se para efeito de higiene era motivo de preocupação.

No século XIII, segundo Duby, no ambiente monástico de Cluny imperava o costume dos monges tomarem banho completo só duas vezes por ano (no Natal e na Páscoa), sem, contudo, «descobrir suas partes pudendas».

Não podemos, nesse sentido, esquecer S. Tomás de Aquino. Discípulo de Alberto Magno – tido como «o grande depreciador das mulheres» e para quem elas não saberiam o que é fidelidade.

O príncipe dos teólogos conceberia uma teologia cristã na qual o casamento seria levado ao seu nível mais baixo, criando as condições à «demonização do sexo» (Uta Ranke).

Para ele, a mulher nasceria em circunstância de um fracasso da natureza. Em palavras mais precisas: o homem seria a concepção de primeira ordem e a mulher um “homem mal formado”.


Aquino teria, ainda, fertilizado uma crença supersticiosa de homens e mulheres que teriam relações sexuais com o demônio. Seu desprezo pelo feminino em parte se consubstanciaria nos erros biológicos e nos princípios patriarcais de Aristóteles.

Isso o levou a acusar as mulheres, bem mais que os homens de manter relações sexuais com demônios, chamados súcubos e íncubos.

Para Tomás de Aquino, havia dois tipos de pecado relacionado à luxúria: os pecados contra a razão (fornicação e adultério) e pecados contra a natureza.

Seriam considerados pecados contra a natureza a masturbação, o sexo com animais, a homossexualidade e a prática "antinatural" do coito. Assim, por exemplo, "não se podia fazer sexo em orifícios não naturais (boca e ânus), mesmo que fosse entre marido e mulher".



Uta Ranke atribui a Aquino não a responsabilidade teológica pela Bula das Feiticeiras (1484 d. C), formulada por pelo Papa Inocêncio VIII, mas perceberia o pensamento aquiniano como uma condição essencial desse famigerado instrumento de perseguição cristã.

Nessa linha, em 1487, os autores do Martelo das Feiticeiras (espécie de Bíblia da Inquisição), os alemães, J. Sprenger e Heinrich Institoris rogariam a punição de pena de morte para as “bruxas parteiras”, por acusá-las de matar crianças não batizadas, o que na concepção agostiniana significaria a condenação ao inferno.


O imaginário ocidental incoporou às mulheres a figura da bruxa e os mistérios a ela associados.

Martelo das Feiticeiras - manual de demonologia mais importante usado pela Igreja Católica nos processos inquisitoriais, além de pregar uma perseguição incansável às mulheres, sugeriria uma suposta condição de fraqueza do feminino com relação ao sexo e “pregava” sua aproximação com o demônio.

A historiadora e feminista, Rose Mary Muraro, é ainda mais precisa no tocante ao tema, para ela o Maleus Maleficarum associaria a transgressão sexual à transgressão da fé, e transformaria a sexualidade feminina na própria figura do demônio.

Essas posturas cristãs, além de legitimar a violência a partir do “sagrado”, terminariam por criar uma imagética feminina associada ao medo, ao perigo, à lascívia, ao próprio demônio, ou seja, haveria uma depreciação exagerada da mulher, pelo menos àquelas não enquadráveis às regras prescritas pela igreja.

E não pensem que estamos falando de coisas tão distantes.....



(continua ....)

Referências bibliográficas: Eunucos pelo Reino de Deus, Uta Ranke, Erotismo, Georges B.; História da Vida Privada, Duby; A história do feminismo no Brasil, Carlos Bauer; e outros.

domingo, 9 de maio de 2010

A masturbação feminina e as "mulheres católicas".


Falaremos em breves palavras sobre um tema ainda polêmico: a “masturbação feminina”. O faremos segundo pesquisas bibliográficas e entrevistas realizadas em cinco cidades nordestinas, com um total de 100 mulheres, incluindo-se as católicas carismáticas.

Primeiramente é bom que se diga: em quase todos os tempos de nossa história ocidental, a cultura criou um ambiente de intensa e doentia vigilância sobre a mulher. Um olhar destemido que se estenderia também ao seu “prazer solitário”, ou seja, a masturbação.




Não esqueçamos que a medicina e a igreja, aliadas aos “bons” costumes burgueses, fizeram por muito tempo uma marcação cerrada e impiedosa para se evitar o que consideravam um "vício abominável", o "supra sumo dos vícios".

Até textos bíblicos foram usados para solidificar essas posturas e “cuidados”. Um exemplo típico é a Carta aos Coríntios de Paulo: «os fracos (isto é, aqueles que ejaculam voluntariamente, sejam rapazes ou moças, sejam casados ou não casados) não possuirão o reino dos céus» (1Cor 6-10) (Jean Delumeau).

Tudo isso para embasar um pensamento moral no qual o gozo feminino não seria tolerado sem a presença masculina.


Nesse sentido, a hostilidade dos médicos do século XIX se voltaram para o clitóris – «simples instrumento de prazer e desnecessário à procriação». E médicos, padres e pais fariam uma verdadeira cruzada contra a masturbação (também conhecida como onanismo).


O exagero era tanto que alguns médicos viriam até na prática da equitação e no uso da máquina de costura (essa última denunciada pela Academia de Medicina em 1866), uma possibilidade da mulher encontrar o prazer no movimento das pernas (Corbin).


Próprio Philippe Pinel, médico francês considerado por muitos o pai da psiquiatria, defendia que as mulheres ficariam loucas irrecuperáveis mediante o exercício inapropriado da sexualidade, devassidão, propensão à masturbação e homossexualidade.


Por isso, até o início do século XX, acredita-ve que a masturbação seria causadora de doenças mentais (a histeria é um exemplo). Uma tese defendida por vários médicos, a despeito das descobertas de Freud (Mary del Priore).

Na realidade, a partir de Freud e da psicanálise começa-se a se justificar e amenizar a culpabilização dos desejos e das fantasias que provocaram por tanto tempo aflição nas mulheres e que eram estímulos à masturbação. O desejo, dito na linguagem clerical como demoníaco, passaria a ser tratado como um algo natural.

E no século XX, toda uma cultura começaria a ser arquitetada em cima dos conceitos de sexologia e orgasmoterapia. E ao contrário do passado, a masturbação feminina passa a ser prescrita científica e naturalmente como parte de um sistema de melhoria de vida das mulheres, ou seja, com fins terapêuticos. E sem mais nenhuma conotação de indecência ou de incentivo a perversão (Vicent).


A sexologia na realidade fez funcionar um sistema em que se defenderia abertamente a erotização e a legitimidade do prazer. Duas variáveis da sexualidade humana fundamentais, mas em contraposição flagrante à moral sexual pregada pela doutrina católica.



Notem que ainda hoje, para o Catecismo vigente da Igreja Católica, "o prazer sexual é considerado moralmente desordenado, quando é buscado por si mesmo, isolado das finalidades de procriação e união" (Catecismo).




Considerando que a definição do termo masturbação oferecido pelo documento vaticanício o situaria no contexto da «excitação voluntária dos órgãos genitais» com o fim exclusivo de conseguir um prazer venéreo, «o ato seria intrínseca e gravemente desordenado». Sem meias palavras, persistiria a condenação religiosa para esse tipo de prazer na contramão de toda uma ciência e dos costumes.

E isso de certa forma apareceu nas entrevistas, realizada em 2008, com mulheres de João Pessoa (PB), C. Grande (PB), Natal (RN), Recife (PE) e Salvador (BA).



Interessante observar que não tivemos dificuldades em abordar o tema nas entrevistas. Poderíamos até imaginar com isso um traço de abertura das mulheres (de quebra de tabu).

Mas falemos dos resultados:

Pois bem. Sobre as respostas e comentários a respeito do tema masturbação, podemos afirmar que esse foi um divisor de águas bem nítido entre as mulheres mais afastadas do catolicismo e as mulheres carismáticas.

Ora, por mais que se fale em avanço da sexologia e da busca do prazer, a pesquisa demonstrou que muitas mulheres ainda associam a masturbação a algo errado ou desnecessário; um tabu ou até um pecado.





Em suma, reina ainda esse tabu cultural, pelo menos nos grupos de mulheres mais próximas do catolicismo. E entre as carismáticas, 89,29 % das entrevistadas consideram a masturbação um ato que visa exageradamente a sexualidade, por isso, um perigoso estímulo ao prazer sensual, que termina por se distanciar do "projeto de Deus".



Bem diferente é a percepção das mulheres mais afastadas do catolicismo. Para elas (mais de 82% das entrevistadas), o tema é visto dentro de uma perspectiva de naturalidade e de autoconhecimento (do corpo sexuado).

Essas mulheres pensam a masturbação como um ato comum inerente à natureza feminina e uma prática necessária ao desenvolvimento da sexualidade e autoconhecimento para as mulheres em geral.



Todavia, elas próprias às vezes apresentam sinais de culpa e desconforto em lidar ou assumir a prática; muitas inclusive, não obstante acharem normal, dizem não praticar isoladamente.

No fundo, os resultados mostraram que a masturbação é ainda um tabu cultural para muitas mulheres, especialmente, às ligadas aos movimentos carismáticos.


Jean Delumeau, O pecado e o medo: a culpabilização no Ocidente. Vincent, Gérard. História da vida privada. Alain Corbin; História da vida privada: a relação íntima ou os prazeres de troca. André Agra. Moral sexual: a mulher pós-moderna no Confessionário. Catecismo da Igreja Católica; Georges Vigarello, História do Corpo