quinta-feira, 16 de abril de 2020

O “novo normal”, a Ciência, a Fé e a Arte.



             Ante um cenário tão desafiador e disruptivo, várias indagações surgem a cada instante. E, apesar da maioria delas ainda estarem sem respostas, algumas especialmente estão me fazendo refletir muito, tais sejam: “Quando iremos voltar à normalidade”? E de qual “normalidade” estamos a falar? Há uma reinvenção do que seria o “normal”? 

         Pois é, pessoalmente, acredito em um cenário pós-crise #covid19 bem diferente, cheio de ameaças, mas também com muitas e inesperadas oportunidades. 

             E por que penso assim? Vejamos:

           Assistimos à escalada de um vírus impiedoso a estourar “bolhas” (e criar outras). Mas, acima de tudo, ele testa em grau máximo a força e “solidez” de muitos conceitos, ideologismos e modelos de respostas a crises de cidades, países e continentes. Alguns desses, inclusive, sendo literalmente derretidos! Seja eles de ‘”direita”, de “esquerda”, “liberal”, “conservador” etc. Tudo está sendo posto à prova, de forma avassaladora.



            Observem que a #convid19 está deixando bem explícito (podemos até nos negar a reconhecer isso) o perigo real de insistirmos em alimentar a “cultura do achismo”, da “pós-verdade”, de raciocínios unidirecionais, em detrimento à educação científica e à visão global do mundo. Chegamos a propagar recentemente: “as vacinas fazem mal, pode até matar”. Resultado: o sarampo voltou! Muita gente deixou de se vacinar contra a gripe. Resultado: os surtos de gripes (exemplo: h1n1) se somaram à pandemia do novo corona vírus. E, paradoxalmente, agora, estamos todos rezando por uma vacina para a Covid9. 

        Fica, pois, evidente a necessidade de repensar esse endeusamento da pseudociência e essa loucura de adotarmos como elevarmos, ao extremo, a régua balizadora incontestável de verdades as nossas paixões e crenças, inclusive, políticas. Estamos medindo o mundo a partir de uma visão única sem aceitar qualquer tipo de contestação, caso venha do lado considerado oposto. Todas as verdades não podem ser privilégio exclusivo de sua bolha (atentem para isso). 

          Mergulhar num “sonho dionisíaco” pode ser prazeroso e apaixonante, mas quando o mundo real se apresenta e exige ação e tomada de decisão, estragos importantes podem acontecer por esses excessos. Não podemos seguir cegamente ninguém, não podemos perder a nossa capacidade mínima de análise crítica. 

        Não é à toa que assistimos ao surgimento de uma profusão de “tribos” (neotribos) com ideias tresloucadas sobre o mundo, sobre os comportamentos e questionando cinicamente o árduo trilhar da ciência. Tentam, com discursos oportunistas, que quase sempre são autoritários e niilistas, e desqualificam conquistas históricas, inclusive da democracia. Ora, como é possível, em pleno século XXI, ser preciso reafirmar a uma criança: “a terra NÃO é plana! ”. Vcs já pararam para se perguntar sobre isso? 



          Pois é. A #convid19 conseguiu a proeza de revalorizar a importância da Ciência. Alguém ainda tem dúvida que será a Ciência, possivelmente, a responsável por mitigar, curar e chegar a uma solução definitiva para essa #pandemia? 

        Mas não esqueçamos a Fé. A Fé no transcendental também parece se fortalecer, pois ela está nos dando força, mais resiliência para amenizar nossos sofrimentos, medos e tristezas. Como se nos fosse oferecida uma nova chance (uma janela de oportunidades) para (re)ligar-se ao Ser Maior. E, principalmente, praticar de fato o “Amor ao Próximo”. E isso nunca foi tão importante.  A empatia e a solidariedade podem salvar muitos de nós.  

       Por fim, não poderia deixar de citar a Arte. Quem não se emociona e se revigora ao ouvir uma bela música, das sacadas das janelas, de telhados, das “lives”? O som do” inaudito” que nos faz sublimar e encantar-se naquele instante (mesmo que seja só naquele instante), e ameniza a pressão do mundo real. Como diria Nietzsche: “ A Arte torna a vida suportável”. Quem assistiu a “live” de Andrea Boccelli no último domingo, em Milão, sentiu possivelmente esse inaudito que afaga o espírito nesse momento tão turvo e incerto. 

Venceremos essa pandemia, sendo fortes, solidários e trabalhando de forma colaborativa!

André Agra Instagram: andreagraagra

quarta-feira, 24 de junho de 2015

Memorial dos 150 anos de Campina Grande - Homenagem aos Tropeiros da Borborema





Os Tropeiros da Borborema podem ser considerados como elementos centrais na formação da identidade cultural campinense. Eles alimentam nossas memórias, com suas sagas e feitos, e dão um sentido particular a nossa origem.



Esse sistema de “ideias-imagens” do ser-de-campina, que também pode ser chamado de tropeiro-feirante, parece se estruturar a partir de três características fundamentais: a capacidade heroica de vencer desafios; o empreendedorismo desbravador e cosmopolita; e a adaptabilidade ao meio (e de fazer desse meio o centro de tudo).

Trata-se de um retrato simbólico (dos tropeiros) cuja idealização nos reporta necessariamente ao passado, mas a um passado (um rever os antigos”) com sede de presente, do hoje, na intenção manifesta de fazer perpetuar esse traço inalienável do nosso imaginário coletivo. 

As imagens ditas primordiais e os mitos precisam ser perenizados, cultuados e, quando necessário, revigorados. Não se concebe uma sociedade, uma civilização, sem seus heróis, suas histórias lendárias e míticas. O mito “relido” é parturiente de imagens-ideias de um recordar que anima (impulsiona) o presente. Não é a toa que quando ouvimos os tropeiros que partiam mais cedo que a barra da aurora”, “nos tempos de outrora, parece formar na nossa mente a imagem-sensação de ser incansável, de disposição titânica, e isso é exemplo de força civilizatória.  

Platão, em sua obra clássica A Republica, nos sinaliza o caminho: o mito foi salvo do esquecimento e não se perdeu. Ele pode, se lhe dermos crédito, salvar-nos a nós mesmos. Os romanos têm em seu mito de origem, de Rômulo e Remo, personagens que foram alimentados por uma loba, a exaltação a figura do guerreiro.


Notar, por outro lado, que a historiografia tradicional teria os tratado (os tropeiros), de forma periférica, um tanto marginalizada, e o “tropeiro empreendedor” tornou-se uma espécie de “desconhecido”. Nesse sentido, a imagem-emoção das tropas de burros que vem do sertão, trazendo em seu lombo, peles e fardos de algodão tenderia a se distanciar, como ator operante, da centralidade dos ciclos de desenvolvimento da cidade. Esse ator-ideia, ou mito de origem, de valor arquetípico, se fazendo valer da linguagem junguiana, teria sido pouco captado e valorizado pela análise histórica linear e racional


Ora, as Luzes só mostram e valorizam o que está claro, vício da modernidade; as sombras, as imagens profundas (primordiais), as ideias que fazem sonhar, no dizer de Bachelard, eram (ou são) lidas como ilusões, fantasias, por isso, fora da equação cartesiana do saber, e do fazer. Não fosse a poética genial de Raymundo Asfora que anunciou o  recordar hoje é o meu lema do tropeirismo da Borborema, obra épica, musicada por Rosil Cavalcante e cantada pelo Rei do Baião, talvez poucos tivessem ouvido falar e se emocionado com esses heróis pouco explorados do imaginário campinense contemporâneo.



No quesito desafio, inclusive, surpreende a escolha da campina grande como lugar para o nascimento da Rainha, um planalto sem água, nem manancial de abastecimento por perto. Evaldo Gonçalves observou bem essa faceta do mito e da história. O ato de fincar morada na Rainha da Borborema já trazia consigo uma escolha de superação mítica.  Ser resiliente era uma condição sine qua nom para enfrentar a sede e a poeira do sol que desaba; que rolava o caminho que nunca se acaba. A decisão, por si só, era uma decisão heroica... Nascemos sob o signo da crise hídrica, algo do nosso cotidiano, portanto, nunca foi nem será impeditivo ao nosso crescimento.


Pois bem. A obra arquitetônica e a escultura a ela acoplada (a frase pode ser lida em sentido inverso), é um conjunto de representações históricas e simbólicas destinado a (re)valorizar esse mito fundador da civilização campinense, os “Tropeiros da Borborema”. E exaltar o espírito empreendedor do campinense, a eles intimamente associado. 

Quando, por exemplo, cantamos foi grande por eles que foram os primeiros, estamos realçando o traço de heroísmo e de orgulho desses desbravadores presente no mito de origem.

Sua marca, seu traço, sua concepção estética não se intimida em desconstruir a proporcionalidade e simetrismo entre as partes, o faz para provocar uma mudança de percepção, rompe-se a “lógica”, como a poesia nos ensinou: o passo moroso; só a fome galopa; pois tudo atropela o passo da tropa. “Atropela”, ou interpela, para nos levar da posição de observador para a de observado; de um olhar distante, impassível, para um olhar inundado de emoção.

E para isso, propõe um mergulho no nosso próprio imaginário, que é coletivo e é nosso (o ser-campinense); e o real e o imaginário vão ter, enfim, suas núpcias, em plena pós-modernidade, na leitura mais profunda do mito.




A leitura de verdades imersas, “escondidas” pela poética. E se caminhavam as tropas cansadas e os bravos tropeiros buscando pousada, representação do gene do desenvolvimento, da riqueza, tatuado menos pelos duros chicotes que cortavam os lombos ou pelos ferimentos nos cascos(símbolo de uma subjugação, a ser superada, da natureza ao progresso), e mais pela simbologia da perseverança e sentido logístico-distribuidor.    

O conceito arquitetônico é, então, inundado pela carga simbólica do mito, e vai buscar, no diálogo entre o passado, o presente e o futuro, uma forma de expressão estética que use a força da beleza, sustentada por uma ideia, como elemento indutor de uma imersão. 


Imersão cuja finalidade implícita é dar o devido valor a emoção heroica dos tropeiros, sem hipervalorizar a razão, a ciência, expressa no casulo espelhado de quem olha de uma perspetiva lateral.

Esse primeiro bloco é, pois, uma representação da Campina Hightech, da razão iluminista, de sua grandiosidade sofisticada e antenada com o mundo, por isso, o arrojo da sua estrutura suspensa, suas faces espelhadas e elementos metálicos, que representa A Rainha contemporânea, educada na Academia e disposta a avançar na sofisticação de sua força reluzente.



Mas se o presente é-lhe grandioso e o futuro promissor, olhemo-nos para o passado, na busca idílica da alma campinense, cujo paradigma mítico nos reporta aos Tropeiros da Borborema, suas sagas heroicas percorrendo sertões e cariris adentro. E essa busca nos leva ao íntimo-interior, casulo ôntico no qual foi forjada a alma desse povo lutador, incansável e inovador!  

E nesse viés, o olhar perspetivo em planta-baixa, o olhar dos céus, melhor dizendo,  da lua, desconstrói a leitura estética do mito prometeico, no sentido de fazer nascer uma nova imagem-emoção ou imagem poética: as curvas da estrutura metálica as quais representam duas mãos em forma de “cuia”, a buscar a água de beber na fonte, representação simbólica do tradicional açude velho, manancial divino sonhado no auge da sede atroz dos guerreiros incansáveis. E representação histórica de um passado real, pois teria sido naquele recanto a parada das tropas para matar a sede, daí o cognome “Berro D’água”. 


Essa mesma água que vai dançar, ao som do hino em homenagem à alma campinense dos tropeiros, uma música que é quase um canto de dor, como o jazz é para os escravos da América do norte, mas uma dor que não dói mais, e sim emociona na esteira da saudade dos corações valentes, invencíveis. E nos eleva, ao som do inaudito, no dizer de Nietzsche, e aciona o nosso substrato mental, dando-nos força para ir à frente, na construção de um lugar melhor para se viver.

Esse sistema de “ideias-imagens” do ser-de-campina, que também pode ser chamado de tropeiro-feirante, parece se estruturar a partir de três características fundamentais: a capacidade heroica de vencer desafios; o empreendedorismo desbravador e cosmopolita; e a adaptabilidade ao meio (e de fazer desse meio o centro de tudo).



A obra precisava de um jardim, adorno que representa o flerte com a logística, vocação campinense de ser entreposto. Espécimes do sertão, cariri e brejo, plagas que nos circundam, compõem a vegetação e a embelezam. E as antigas moradoras, trasplantadas (os ipês) vivem na outra margem do açude, admirando a beleza de suas irmãs do verde.

Mas faltava o espaço para escrever o futuro, com o ardor do presente e o animus do passado, por isso, a obra fornece suas linhas amarelas, a cor solar de exaltação ao heroísmo, e o casulo abre-se como um caderno para receber nossos sonhos.  



Sonhos que falem de um novo ciclo, que se anuncia, a partir das terras dos Afonsos, com a visão estratégica do tropeiro-logístico (do mito de origem) e da utopia possível do filho simples do funcionário da rede ferroviária, que vislumbrou, em meio ao cenário da mesmice irritante e estéril, tempos que precisam se renovar, pois Campina nasceu para sonhar grande!



E nada melhor do que a inspiração dos tropeiros, símbolo primordial que nos irriga e dá força, para nos conduzir, à frente de uma nave-casulo, rumo a um novo e duradouro ciclo de desenvolvimento econômico, sustentável e com justiça social, e ai poderemos cantar-sentir a inspiração-imagem dos versos do cearense genial:



Riqueza da terra que tanto se expande
E se hoje se chama de Campina Grande
Foi grande por eles que foram os primeiros
Ó tropas de burros, ó velhos tropeiros
.”

quinta-feira, 6 de março de 2014

A rede e os jardineiros.


A rede começou a balançar! Mas quem principiou o balanço? Eis (talvez) uma boa pergunta rsrs!  Primeiro não se pode “culpar” ou “isentar” exclusivamente o vento; até porque a mão do destino também tem suas armações, suas estratégias “sutis”. Aliás, com força suficiente para ditar o ritmo e altura do balanço. 

Mas que o vento (a natureza) ajudou, ajudou rsrs! Isso é bem visível. Pois como negar a sintonia (fina) dos olhares cúmplices e desejosos, dos beijos que nunca querem acabar, das intenções meio escondidas, que vão além do transitório, do efêmero, como se quisessem durar "para sempre". Seria uma ilusão? Um exagero? Uma sede facilmente saciável? Ou seria a força da natureza moldando e insuflando suas escolhas, as que são verdadeiramente irresistíveis, as que vieram para ficar? Deixemos, no entanto, essa resposta para Cronos rsrs, é mais prudente...

Já o destino, esse não menos discreto, parece ter girado todas as suas rodas para que o improvável acontecesse. Ora, só ele (Ele) seria capaz de mexer com tantas peças, algumas impensáveis, para fazer essas duas histórias se encontrarem e se harmonizarem tão rapidamente (num ritmo que até assusta...). Uma harmonia cheia de paz de espírito e de cintilâncias; cintilâncias de sentimentos coniventes, de acolhimento, de bem-estar; como feixes de luz que se irradiam pelo ambiente e trazem consigo o doce aroma de Eros.




E o Mar? Rsrs! Esse parece olhar sorridente, pensativo, assistindo aos dois “jardineiros”, os quais plantam sementes, cuidadosa e pacientemente, num lindo jardim colorido. E as sementes parecem ser de felicidade! E talvez por isso, o mar acalma-se e se insinue, como que oferecendo seu imenso aconchego  para acalentar o nascimento de um grande amor...... 



E se for só um sonho....não importa...valeu muito a pena sonhar.....



sábado, 27 de julho de 2013

O teu verde.






As sombras dos galhos, do "longe", de um "ontem",
Firmam-se sorrateiras, na parede; 
Reflexos vivos nos ramos de uma linda vegetação 
verde escura, de tom noturno... seria Lilith?

Envolvem a cabeça e se derramam pelo ombro, 
Pelo canto, e por todo corpo a fora...

O olhar já impregnado da cor,  
De um verde oliva, atento, até ofusca,
Mas não tem o poder de rebater "tudo"!

O Amor tem suas armas
E Afrodite é tão forte quanto Hera.


Um "ente" da natureza, como uma deusa do bosque, 
Convida para o deleite, mas tem força suficiente para devorar. 
O mistério ronda, um enigma, como posto a édipo, 


Um quadro perfeito, e como tal...
Não cabe mais "nada", nem ninguém; 

Mas apreciar, pode; desfrutar, só com coragem; 
Ficar, "jamais"! 

Só suas raízes ficam, por serem raízes.  


Mas não esqueçamos, existem os ventos, fortes e destemidos, 
E esses com o tempo conseguem até moldar naturezas, 
Quiçá mudá-las .... só em lendas, fábulas?!!!!.


Para quem possa acreditar!!! Resta a esperança 
do verde noturno transmudar-se em verde esmeralda.... 




sexta-feira, 22 de março de 2013

Amor à estética?




Já é “lugar-comum” a crítica da intelectualidade (e outros) ao apego exagerado da sociedade contemporânea a “estética corporal”, o culto ao corpo, a busca por uma beleza idealizada pela mídia; uma verdadeira “tirania do belo”; o que é legítimo!  No entanto, poucos se preocupam em tentar compreender minimamente a razão dessa louvação à Afrodite. Por que será, então, que estamos nos “estruturando” em torno desse “mito da beleza”? Será que as novas gerações não se decepcionaram com as promessas dos grandes sistemas de pensamentos, “adoradores” de mergulhos profundos em busca de um endeusamento da razão? ... André Agra

terça-feira, 26 de fevereiro de 2013

quinta-feira, 19 de abril de 2012

Beija-flor


Suaves tufos brancos, como pedaços de nuvens a cair na superfície espinhosa do xiquexique voraz.

 
Ornam a princípio a planta resistente, sem, contudo, esquivar-se de seu destino, de sua saga doadora, arrumada pelo sopro evolutivo dos Alpes Celestiais.

 Caem, enfim, no bico do precavido beija-flor, que, astutamente, carreia-os, no labor do artesão mais romântico, para erguer, na sutileza charmosa do voo engenhoso, o aconchego singular da prole amada.

 E as frontes impetuosas e agressivas da planta matreira (e não se diga que seja a urtiga) fazem reluzir um encanto inesperado, criando a guarda aguerrida para os futuros amantes das orquídeas solitárias.


quarta-feira, 21 de março de 2012

Lençóis - Poesia

 

Lembrei-me de teu perfume,
Nos lençóis marcados da noite!
A cama, templo da luxúria!
Unia-se a sede de minha pele
Clamando pelo teu corpo.
Não sei se eram saudades
Da carne, da alma, de ambas...
Devaneios de um tolo!
Carente de teus tocares,
Mergulhado em ilusões
Pois ela se foi, não volta mais...

sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

Floresta Sagrada - Poesia.


Um veio onírico se mostra inesperado
No recanto de uma bela floresta sagrada
As libélulas voam rutilantes, sagazes,
Como sinais de um enlevo adormecido.


Um eu martirizado, disfarçado, vive sua “persona”,
O verdadeiro e inconfundível insano-rei.
Talvez um elo perdido? O antigo em ventos do hoje,
Trazendo segredos, alvíssaras, no que é possível?

Mas tudo é possível, ante a notória imaginação...
Clama-se a libertação viciada da civilização
De erguer-se, com barreiras, em apoteoses de repressão,


Inoculadas nas vertentes mais poderosas,
Por que não chamá-las opressoras?...
Afasta-se o cerne, a verve da flor, do seu odor.

Uma maravilha, esquecida, enriquecida, demais, deveras...
O chamamento que mais incomoda, exorta, e até esnoba...
Resistência madrasta, que maltrata, mas não impede, e impele!

O que se sucede, é visível, mesmo o cego, que sou eu, ou o outro...
Ao ver o antes inteligível, irreconhecível, inapreensível, ahhh...
Mas pude, e vi, e senti, e emergi, renascendo, me contorcendo,

E me libertei, para sempre, sem ventre, sem ente...

 
André Agra

quinta-feira, 3 de novembro de 2011

A chegada à Machu Picchu.


(continuação do texto anterior)

No quinto dia da trilha, acordamos às 3:00 horas da madrugada. A partida estava marcada para as 4:00 horas. Começamos, então, a subir a montanha que nos levaria à cidade sagrada dos incas.

A manhã ainda não tinha despertado, subimos 1643 degraus irregulares. Para não fugir a regra, a nossa peregrinação foi surpreendentemente cansativa (É possível se subir a montanha de ônibus, como a grande maioria das pessoas fazem).

Vencidos os destemidos degraus, atingimos o topo da montanha. As nuvens ainda cobriam-na quase por completo. Pouquíssima visão tinha-se do lugar.

Machu Picchu está a 2.400 metros de altitude, esplendorosa e reinando como uma dos mais importantes monumentos arqueológico e arquitetônico do mundo.

Ao chegarmos, não tivemos a noção dessa grandiosidade, pois as nuvens guardavam-na, cobriam-na quase totalmente.

A misteriosa cidade, conhecida como a “Velha Montanha”, parecia querer se esconder, melhor, negava sua nudez a nossa vista sedenta e insaciável.

Porém, pouco a pouco os raios solares foram penetrando em meio ao nevoeiro e abrindo janelas de observação. Era como se uma mão invisível limpasse cautelosamente um horizonte áureo, mostrando a princípio pedaços de uma imensa obra de arte, para depois desnudá-la por completo.

Ao final, nascia aos nossos olhos incrédulos o espetacular sítio arqueológico dos incas, um santuário que exaltava um forte misticismo, além uma arquitetura particularíssima, expondo suas construções de pedras encaixadas milimetricamente e sistemas de irrigação de fazer inveja a muitas obras da atualidade.


Não podemos esqueçer que Machu Picchu foi também um importante centro de estudos. Ali se educavam e formavam as elites dos incas.


Por isso, para alguns historiadores Machu Picchu foi a primeira universidade das Américas. 


Historicidades a parte, Machu Picchu é um lugar encantado, no qual definitivamente o imaginário fixou sua morada.
Ora, difícil sentir Machu Picchu sob um manto meramente racional, objetivo. Melhor dizendo: para sentir a força mística do lugar, as lentes racionais e autoritárias da razão devem ser meio que esquecidas, desvalorizadas... instaura-se, pois, o reino da emoção.


É nessa condição que se pode criar uma sintonia fina entre o hoje, o ontem e o amanhã. Falamos de sentimentos, falamos de uma interação entre a mística inca e a nossa alma, esta última querendo inebriar-se, emberber-se numa história maravilhosa e sem fim ( a história da cultura inca).


Uma história cheia de curiosidades.

Poderíamos destacar, por exemplo, a forma de enterrar os mortos, ou seja, em posição fetal. Os Incas acreditavam no retorno à vida após a morte (uma espécie de reencarnação). E como tal, a posição fetal já indicaria um renascimento.


Quanto à educação das mulheres, vale ressaltar que aos 10 anos elas passavam por uma seleção. “As mais inteligentes e bonitas, sendo da etnia dos Incas, eram escolhidas e mandadas para Cuzco. Lá eram educadas por mulheres mais velhas".

"Algumas se tornavam esposas do imperador ou de quem ele indicasse, outras permaneciam virgens para participar do culto solar”.

Aos homens “também era dada nas escolas de Cuzco, mas não era como a das mulheres. Era um sistema bem mais severo, não só com aulas sobre a religião, a história, etc., mas também aprendiam a lutar e fabricar armas além de praticarem violentos exercícios que por vezes os levavam até a morte.”

“Estes que passavam por esta educação tinham a sua orelha furada ao terminarem, para indicar que eles faziam parte de uma elite formada por funcionários que eram chefes valorosos para o Império”, como os mandarins no antigo império chinês.

No que se refere à conquista e dizimação dos incas pelos espanhóis e de forma resumida, é possível se argumentar que Pizzaro teria se aproveitado de uma revolta civil, e “graças ao conflito entre os irmãos soberanos Atahualpa e Huáscar, que travavam uma batalha pelo trono, viu a chance de avançar com seu exército nos territórios que já estavam enfraquecidos’.


O Imperador Atahualpa foi feito refém e o povo inca subjugado por completo. Caia assim um império descomunal.

Não podemos esquecer de uma antiga lenda e rumores que se espalharam como fogo pelo Império Inca . A narativa falava de um estranho "homem barbado" que "vivia numa casa no mar" e tinha "raios e trovões em suas mãos".
Este homem estranho começava a matar muitos dos  soldados incas com doenças que trouxera".

"Alguns textos afirmam que mulheres a serviço dos templos eram sacrificadas, mas a maioria das vezes os sacrifícios humanos eram impostos a grupos recentemente conquistados ou derrotados em guerra, como tributo à dominação”.

Algumas lendas falam que as vítimas sacrificiais deveriam ser perfeitas, “e que havia grande honra em conhecerem e serem escolhidas pelo imperador, tornando-se, depois da morte, espíritos com caráter divino que passariam a oficiar junto aos sacerdotes”.


“Antes do sacrifício, os sacerdotes adornavam ricamente as vítimas e davam a ela uma bebida chamada chicha, que é um fermentado de milho, até hoje apreciada”.

No entanto, hoje, muitos historiadores questionam essas interpretações, pois os achados arqueológicos e textos não escritos por espanhóis não indicariam a existência desses sacrifícios.

Poderia ter havido espécie de intencionalidade dos espanhóis para enfraquecer a cultura e a religião inca, acusá-las de práticas, para eles abomináveis, como, por exemplo, as  cerimônias de sacrifício humano.


Difícil adentrar nessa polêmica, ainda mais considerando o desaparecimento de sua população tão rapidamente, e o fato da cidade ter ficado oculta por centenas de anos.

Pois bem, depois de todo esse deleite de emoções e conhecimento da cultura inca os quais pudemos vivenciar com tanta intensidade, voltamos para Cusco (quase 4,5 horas de viagem em um trem panorâmico).


Pudemos então recuperar nossas forças e desfrutamos da antiga capital do império inca....(de sua gastronomia, festivais de cultura, massagens com ervas nativas e passeios fabulosos a suas inusitadas e ricas Igrejas.


Retornamos ao Brasil felizes, rejuvenescidos em ideias e sensibilidades, e com uma sede incomensurável de viver novas aventuras ......

Fontes:


http://www.ampulhetta.org/machupicchu/historia.htm