quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

Mitologias e religiões arcaicas em Avatar

Uma das grandes atrações cinematográficas de 2010, Avatar, fez vibrar os cinemas com suas imagens espetaculares e efeitos especiais dignos das maravilhas tecnológicas dos nossos dias (o uso inovador do motion capture é um bom exemplo disso).

Porém, muito mais do que inundar a platéia com uma boa inflação de imagens (formando uma espécie de natureza encantada), o filme nos permite viajar por outros mundos do imaginário coletivo. E estamos a falar de mundos antigos, a despeito de avatar ser um filme de ficção científica.

Trataremos, então, nessa brevíssima conversa, dessa riqueza mítica (ou de uma re-mitificação ensejada pelo filme).
Em particular, direcionaremos nosso olhar à profusão de símbolos e ritos religiosos presentes nessa produção cinematográfica.

Mas antes de iniciar a conversa, proporemos uma reflexão, como que antecipando um pouco o debate, tal seja:

Será que filmes como
Avatar, Matrix, O ladrão de raios, Eclipse (e todos os outros relacionados a essa onda de vampirismo), Harry Porter, Senhor dos anéis, Nárnia não seriam sinalizações midiáticas desse processo de reencantamento e orientalização pelo qual passamos no ocidente nos tempos atuais. Sobre o reencantamento e a orientalização do ocidente, abordaremos os dois temas em textos futuros.

Pois bem. Entremos em nossa discussão:

Primeiro, é bom não se esquecer que o termo Avatar nos remonta ao hinduísmo. Para seus seguidores, avatares significam encarnações divinas de Vishnu (um entre os milhares de deuses e deusas da mitologia hinduísta), os quais surgem em períodos difíceis da humanidade para apaziguar o sofrimento e lançar novas luzes no mundo.

Num sentido mais amplo, Jesus Cristo pode ser considerado um avatar, ou seja, uma encarnação divina, no caso de Javé, segundo o cristianismo. Ressalvemos que não estamos discutindo a questão teológica da trindade ou a legitimidade de sua crença.

No filme, todavia, avatar designa uma espécie de “encarnação” do homem (uma “projeção de sua consciência”) num ser híbrido (feito a partir do genoma dos humanos e do povo nativo de Pandora, os na´vi); notem que no filme os homens "vieram" do "céu".

Já com relação ao nome Pandora, como no filme, nos parece apropriado tratá-lo no sentido de “esperança”(Pandora é um modelo harmonioso de convivência com a natureza), que coincide com um dos significados para Pandora decorrentes da mitologia grega. Para os gregos, ela seria a primeira mulher criada por Zeus e que fora dada como presente a Prometeu (responsável por roubar o fogo do céus e dar aos homens).

Essa última leitura do mito, bem disseminada no Ocidente, é realizada segundo uma concepção mais androcêntrica (centrada no homem) e patriarcal, por isso, Pandora, nessa visão, é responsabilizada por espalhar os males pela terra (a famosa caixa de pandora).

Uma visão anti-feminista que aproxima Pandora à Eva (a primeira mulher nos textos bíblicos) ou à Lilith (a primeira mulher de acordo com textos das antigas tradições orais judaicas), causando uma depreciação mítica às imagens relacionadas às mulheres (Ainda hoje, infelizmente, se faz uma leitura do Gênesis de modo a "culpar" a mulher por ceder à primeira tentação).

Por isso, adotamos aqui a leitura da esperança, pois, no fundo, ao nosso ver, é essa a sinalização que nos dá a Pandora do filme. Um lua do planeta Polyphemus, localizada no sistema de Alfa Centauro, que funciona como uma espécie de modelo de respeito à natureza e adaptação ao meio-ambiente (um Éden ecológico, espécie de reino celestial, como Zion - a Terra Prometida - o foi no filme Matrix).


Detalhe: a atmosfera pandoriana é tóxica aos humanos, por isso foi desenvolvido o Projeto Avatar. Talvez seja uma metáfora para criticar a nossa relação com a natureza, ou seja, nossa civilização não teria condições de "respirar" o ar pandoriano, por não comungar com a mesma visão cósmica.


Percebam que estamos discutindo menos o texto do filme do que sua constelação de imagens, tentando com isso decifrá-las segundo um olhar da teoria do imaginário e a partir de seu universo simbólico.

Não podemos, entretanto, deixar de enfatizar a denúncia que o filme faz da incomensurável ganância da humanidade (simbolizada pelo capitalismo americano) em se apossar de um minério, o unobtainium para salvar a terra de uma crise energética, mesmo que para isso seja destrua a natureza pandoriana (tal qual fazemos hoje em nosso planeta).


Isso é uma faceta interessante do filme (de uma importância relevante, diga-se de passagem), pois, ao nosso ver, massifica cada vez mais a preocupação ecológica, o que é fundamental.

Mas voltemos aos símbolos. A primeira imagem que nos deteremos é a da grande árvore (um arquétipo de mãe, usando uma linguagem jungiana). É muito comum, em culturas e mitos antigos, associar o simbolismo da árvore à mãe; pois, é ela quem dá os frutos.

Ora, em avatar há toda uma valorização da árvore-mãe, tanto que ela é o alvo principal do ataque dos sky men (nós, humanos, claro). Vejam a relação estreita entre a grande árvore e a mãe natureza (ou Gaia). A árvore é o próprio símbolo da vida coletiva do povo na´vi, ou seja, todos estão ligados a um centro comum.

Na cultura ocidental, por exemplo, a árvore é sinônima de vida e de salvação. O salvador (Jesus Cristo) é a "árvore da vida". Na "França revolucionária de 1789", por exemplo, "se ergueram árvores para festejar a liberdade ("árvores de maio")", uma espécie de endeusamento laico da árvore.

Do mesmo modo, no paraíso terrestre, estão as árvores do bem e do mal e a árvore da vida. “Os egípcios procuravam a árvore na qual os deuses reinam”. A árvore, em todas as culturas, tem significados muito parecida. O carvalho, por exemplo, é a árvore preferida de Zeus (alguns dizem por sua capacidade de atrair raios).

Notem, por outra perspectiva, que o mundo pandoriano mais se aproxima da religião das grandes deusas ou de uma sociedade matriarcal. Tanto a mãe, Mo’at, a matriarca dos na’vi, como a filha, Neytiri, caçadora destemida e bela (com algumas semelhanças com Diana, deusa da caça na mitologia grega) são figuras de destaque no grupo.

E mais: não percebemos, no filme, uma hierarquia masculina se impondo ao povo na’vi. Mo'at inclusive é a xamã do clã. Os na'vi veneram uma deusa chamada Eywa.

Para muitos estudiosos, num passado imemorial, antes da ascensão das religiões patriarcais de origem abraâmica, como o judaísmo, o cristianismo e o islamismo - religiões que se baseiam mais em figuras e princípios masculinos dominantes (Deus, sacerdotes, teólogos, profetas) - teriam existido sociedades matriarcais (o centro na mãe) onde se cultuava deusas femininas (as imagens religiosas mais antigas descobertas são de deusas femininas; a venus de willendorf é uma referência).

Mas outras simbologias emanam de Avatar:

A visão holista do cosmo, representada pelo endeusamento da natureza (panteismo). Era como se tudo fosse sagrado para o povo na’vi, desde os vegetais, os animais, eles próprios, todos interligados por um laço divino. O conjunto formando um organismo vivo e harmônico.


E isso parece ser um dado sintomático para o nosso viver, pois ao se redescobrir as virtudes da natureza-mãe, como nos ensina Maffesoli, era como se o sentido da globalidade se recuperasse, ou seja, abalam-se os tentáculos do individualismo moderno em prol de um projeto do todo (principalmente um projeto de cunho ecológico).

Notem que Jake (que substituiu seu irmão gêmeo falecido), ao final, morre e reencarna definitivamente num corpo do avatar, como Neo, renasceu em matrix, ou Mitra segundo o mitraísmo. No fundo, mortes, renascimentos ou reeencarnações são eventos presentes em muitas religiões.

Há ainda de se abordar a forma de sepultamento do povo na’vi, em posição fetal (retorno ao ventre materno). Grande parte das civilizações primitivas costumava enterrar seus mortos na posição fetal. “Ele está nascendo para uma outra vida, de modo que vamos colocá-lo na mesma posição que veio para este mundo”, diziam. Vários povos indígenas do Brasil, dos Andes, da Polinésia, e de tribos australiana também adotavam esse costume.

Outro evento significativo de Avatar (para a nossa análise), é quando Jake doma o grande Ogro (dragão), o rei dos predadores dos ares, de nome Toruk (na'vi). Um ser reverenciado como totem, ao simbolizar o medo e o respeito (com alguma aproximação ao totemismo encontrado nas tribos primitivas australianas).

Notem que domada, a ferocidade maior da natureza (ou a sombra de cada um de nós) tranforma-se em aliada, ou seja, o que era a força temida e sombria, "incorporada" ao herói (por um feito heroico), passa a constituir-se uma arma de proporções avassaladoras.

E "serve", a partir de então, como elemento de união dos clãs. A saga do herói une os grupos para enfrentar um mal maior (algo bem presente em nossas lendas, contos e mitos ).

A ligação entre o povo na'vi e o cavalo (um cavalo de seis patas de nome Direhorse), com uma espécie de crina que se une ao cabelo dos na'vi, formando um conjunto a partir de uma conexão cerebral. O homem (ou a mulher) e o cavalo em plena harmonia nos lembra à figura do centauro. Para a mitologia grega, um animal fabuloso, o qual habitava "as planícies da Arcádia e da Tessália".

Essa ligação se repete como os banshee, animais alados nativos de Pandora. Os banshee fazem parte de um rito de passagem dos pretendentes a guerreiros no povo na’vi. Sua montaria é uma das tarefas mais árduas e perigosas, por isso, o prestígio exaltado de que o doma para o clã. Nesse caso, tanto os ritos de iniciação, como a perspectiva (ou o sonho) de voar e o domínio da natureza, do instinto (o banshee) são elementos fartamente presentes nas mais diversas culturas.


São muitos outros símbolos que ainda poderíamos apresentar e discutir....Mas voltemos a nossa indagação primeira: qual a relação existente entre essas re-mitificações, o encantamento do mundo (ou o retorno do sagrado) e a "recuperação do natural", do naturalismo (bem evidente na comunhão ecológica das pessoas em torno e pela defesa do nosso planeta)? Todos, nos parecem, eventos dos tempos pós-modernos.

Fontes: Estruturas antropológicas do imaginário, Tempo das tribos, Tratado da histórias das religiões e outros

9 comentários:

  1. Uau! Realmente a consistência desse ponto de vista é bem mais profunda que a do poeta. Gostei muito dessa concepção sobre a 'orientalização do ocidente'. Ainda ontem conversava com um amigo sobre o fim da inversão de valores ou a descontrução do que chamamos hoje de civilização. A natureza retoma na marra seu posto principal, exigindo respeito sob pena de morte!
    Parabéns pelo post! Até hoje não li nada igual sobre Avatar. Especula-se muito os efeitos, tecnologia 3D, mas o entendimento geral sobre a história ainda é bastante raso.
    Beijo.

    ResponderExcluir
  2. Uau! Realmente a consistência desse ponto de vista é bem mais profunda que a do poeta. Gostei muito dessa concepção sobre a 'orientalização do ocidente'. Ainda ontem conversava com um amigo sobre o fim da inversão de valores ou a descontrução do que chamamos hoje de civilização. A natureza retoma na marra seu posto principal, exigindo respeito sob pena de morte!
    Parabéns pelo post! Até hoje não li nada igual sobre Avatar. Especula-se muito os efeitos, tecnologia 3D, mas o entendimento geral sobre a história ainda é bastante raso.
    Beijo.

    Renata Fern

    ResponderExcluir
  3. Uau! Realmente a consistência desse ponto de vista é bem mais profunda que a do poeta. Gostei muito dessa concepção sobre a 'orientalização do ocidente'. Ainda ontem conversava com um amigo sobre o fim da inversão de valores ou a descontrução do que chamamos hoje de civilização. A natureza retoma na marra seu posto principal, exigindo respeito sob pena de morte!
    Parabéns pelo post! Até hoje não li nada igual sobre Avatar. Especula-se muito os efeitos, tecnologia 3D, mas o entendimento geral sobre a história ainda é bastante raso.
    Beijo.

    Renata Fern

    ResponderExcluir
  4. Prezado André,

    Além do simbolismo, que você bem relatou, filmes como Avatar e Matrix nos atrai pelas questões filosóficas que podemos identificar. Na questão mitológica, o encantamento é potencializado pela materialização do sonho... a tecnologia nos permite, como nunca antes, tornar os mitos perceptíveis e concretos.

    Na questão filosófica, vejo em Avatar, como em Matrix, o Mito da Caverna de Platão. A busca pela verdade, imaterial, espiritual (mundo das idéias), como forma de libertação da caverna. Jake é o filósofo que salva a alma de seu povo, assim como Neo em matrix.

    Parabéns,

    André Cabral

    ResponderExcluir
  5. Não sou filósofo, vc bem sabe, e apesar de gostar de ficção tive várias restrições para assistir Avatar pois achava as cenas pra lá de fictícias. Me rendi finalmente na semana passada (muito pela versão 3D), e o que me conquistou foi justamente a temática do filme, trazendo a atenção para o respeito à Natureza já tão devastada mundo afora. Gostei particularmente de uma cena onde o povo da floresta se une numa espécie de mantra e biodança invocando numa catarse a divindade Eywa. Gostei principalmente da disseminação do conceito que estamos todos interligados numa teia de energia. O que lhe beneficia o faz a mim também, assim como o que lhe ataca. A teoria quântica é pratica há muito pelos iogues e homens considerados santos, em qualquer parte do mundo. O que falta mesmo para o restante de nós, é praticar os conceitos de empatia e caridade, e aqui eu me incluo nesta caminhada de aprendizagem. Assim espero deixar menos dívidas para o futuro !

    ResponderExcluir
  6. oi Tio!eu vi!! parabenssssssssssssssNão consegui ler todos os textos, mas está bem legal!!!parabensssssssssbjinHusS

    Thaís Caracas

    ResponderExcluir
  7. Nossa, é uma viagem. Muito, muuuito interessante mesmo, gostei. Parabéns! /Cristina Monteiro

    ResponderExcluir
  8. Irenaldo Quintans28 de abril de 2010 08:31

    Parabéns, André. Conheci seu blog e achei muito bom constatar que no meio das Exatas, dos cartesianos, dos homens dos cálculos e das réguas, pois assim o é o universo da construção civil, espaço no qual militamos juntos, existe alguém com a sua sensibilidade. Parabéns, sobretudo, pela visão abrangente e otimista em relação à mensagem de Cameron. Fraterno abraço. Irenaldo Quintans

    ResponderExcluir
  9. A questão básica é que ha um resgate do conciente ecológico disseminado pela interligação do espiritual com o natural tratando da valorização da conecção entre a verdade nescessária e um conceito de moralidade espiritual criando um impasse filosófico evidenciado no momento em que Jake questiona a realidade em que quer se inserir, a que ele vive agora como Avatar ou a humana...?

    ResponderExcluir